27/08/26




Lisboa: laboratório vivo da imobilidade urbana


A Metropolitano de Lisboa atravessa uma profunda e silenciosa crise que para mal de todos os utilizadores da rede, é também duradoura. A sua credibilidade enquanto prestadora de um Serviço Público determinante para a estratégia de mobilidade da cidade, há muito que está em causa, perante um serviço em regra deficitário, com falhas graves e sistemáticas negligenciando a qualidade de vida de quem vive ou de quem se desloca todos os dias para trabalhar em Lisboa.


É sabido, que a empresa pública opera sem quórum no seu conselho de administração, facto que condiciona qualquer vontade ou estratégia de gestão, com consequências imediatas na sua gestão efetiva, seja ela corrente ou de médio/longo prazo, produzindo uma paralisia institucional evidente, que se traduz numa visível e desconfortante degradação dos serviços prestados aos cidadãos. Este vazio de liderança e de estratégia, reflete-se sobretudo no quotidiano do metro de Lisboa, onde a mobilidade cada vez mais limitada, condicionada por estruturas, equipamentos e máquinas votadas ao desgaste e aparente abandono, resultando numa experiência penosa para todos. Os utentes, que legitimamente esperam usufruir de um transporte moderno e eficiente, deparam-se diariamente com intervalos entre comboios excessivos, afastando-se do padrão de serviço próprio de uma verdadeira rede de metro. A estes constrangimentos acrescem atrasos cada vez mais frequentes, condicionamentos diversos, o encerramento de acessos em várias estações e, sobretudo, a recorrência de avarias prolongadas em elevadores, tapetes mecânicos e escadas rolantes. A tudo isto soma-se a evidente falta de salubridade de muitas estações, bem como da falta de limpeza e conforto térmico, das próprias carruagens, onde permanecer se torna amiúde um desafio devido aos maus cheiros. Se tudo isto é difícil para o utilizador em movimento, cálculo que seja ainda mais difícil para quem trabalha nestas condições.


Perante o desejo de uma Lisboa inclusiva, inovadora e sustentável, a ausência de soluções estruturadas e planeadas faz-me temer que esta situação se prolongue indefinidamente, com consequências desastrosas para as pessoas e confiança no transporte público como alternativa ao transporte individual, mas sobretudo, para a cidade.


Lisboa carece de um planeamento integrado entre os diversos modos de transporte, assente numa verdadeira intermodalidade, capaz de servir o cidadão, o ambiente e as comunidades. Impõe-se, assim, uma mobilidade desenhada para as Pessoas, concebida de forma eficaz e sustentável.

No último ano e meio, o metro de Lisboa acumulou 1500 horas de perturbações na circulação, valor que traduz o caos silencioso que os utentes sentem todos os dias. A administração da Metropolitano de Lisboa aponta recorrentemente, junto dos meios de comunicação social, justificações vagas e várias no espectro das avarias, atos de vandalismo, falta de peças ou atrasos das empresas de manutenção contratadas. O verdadeiro problema não reside apenas nas contingências do dia a dia, com a quais os utentes se confrontam, reside sobretudo numa gestão negligente que falha redondamente na supervisão e na capacidade de manutenção dos seus equipamentos.

Em 2021 foi contratualizado um acordo de manutenção integral do Metro de Lisboa com um orçamento de 3,5 milhões e com validade até final do ano de 2025. Contrato este que deveria garantir em particular, o funcionamento regular total dos equipamentos mecânicos em todas as estações. A realidade do utente é assustadoramente diferente, onde as falhas se mantêm e, em muitos casos, se arrastam durante semanas ou meses a fio sem resolução. O desfasamento entre o dinheiro gasto e a qualidade do serviço prestado denuncia gritantes fragilidades na forma como o metro é gerido e fiscalizado.

A situação é de tal modo periclitante que a crítica surge, no interior da própria instituição. Carlos Macedo, funcionário com trinta anos de casa e membro da direção do Sindicato dos Trabalhadores do Metropolitano de Lisboa (STMETRO), afirmou recentemente e publicamente que seria preferível que a Metropolitano de Lisboa tivesse técnicos qualificados internos para realizar as manutenções, em vez de depender de empresas externas que não respondem com a celeridade e qualidade necessárias.
O que nos leva a depreender que ao longo dos anos, a Metropolitano foi perdendo quadros técnicos e conhecimento especializado, tornando-se hoje refém de prestadores de serviços cujas capacidades para cumprir com objetivos contratados é visivelmente limitada e em muitos casos inadequada. Por outro lado, falha na supervisão e fiscalização da própria Metro, que não foi capaz ainda, de exigir da empresa contratada a resolução dos problemas que se acumulam dia após dia. Comprometem a eficácia de resposta, afastando a instituição da sua missão maior que deveria ser servir com qualidade e segurança os utentes e a cidade.

Os lisboetas e todos aqueles que entram diariamente na cidade para trabalhar e passear, acabam por despender demasiado tempo, paciência e, muitas vezes, perdem alternativas de transporte, já que o recurso ao metro, tendo em conta o avultado investimento que representa e que é suportado pela generalidade dos contribuintes deve ser o eixo central da rede de mobilidade. Cada falha, cada atraso, cada avaria, não são apenas pequenos incómodos: são entraves acumulados que afetam a produtividade e a qualidade de vida dos cidadãos.

Apesar dos anúncios sucessivos de investimento, os resultados não se materializam. Desde 2018, foram anunciados mais de 22 milhões de euros de investimento em infraestruturas de acesso, nomeadamente: elevadores, tapetes mecânicos e escadas rolantes, mas a situação continua a deteriorar-se. A cada ano que passa, os relatórios evidenciam novos investimentos, mas o utilizador continua a sentir os mesmos problemas e suas agravantes, o que alimenta a justa perceção de que existe um fosso entre a propaganda oficial e a experiência concreta do dia a dia na rede metropolitana. A evidente ausência de liderança, por razão de uma administração incompleta e fragilizada, incapaz de impor um rumo estratégico ou de dar prioridade absoluta ao serviço público que deveria assegurar, gera o desgoverno latente da instituição.

O metro de Lisboa é uma peça fundamental para a sustentabilidade da capital. Sem um sistema de transporte público eficiente, acessível e moderno, não há estratégia de mobilidade urbana que resista, nem plano de sustentabilidade ambiental que se cumpra. O papel da mobilidade reveste-se de especial importância porque é o garante de que todos chegam a todo o lado, numa cidade que se pretende inclusiva e cuja topografia não pode ser descorada. Não podemos e não queremos arriscar que os utentes desistam do metro como recurso principal nas suas deslocações dentro da cidade.

A atual degradação representa, muito mais do que um problema de gestão empresarial: é um problema político, social e cívico. É a demonstração de como a falta de visão estratégica e de investimento adequado nas infraestruturas públicas pode prejudicar diretamente a vida de milhares de pessoas e empresas.

Não podemos resignar-nos a ver a Metropolitano de Lisboa definhar lentamente, afastando-se de ser parte integrante da solução. É imperioso reforçar a gestão com uma administração plenamente constituída, capaz de assumir responsabilidades e de definir estratégias e metas claras, devidamente apoiadas pela tutela governamental, para uma mobilidade eficaz. É preciso recuperar competências técnicas internas, garantindo que os problemas são resolvidos com celeridade, e eficácia e espírito de missão. É preciso exigir contratos de manutenção que funcionem de facto, com penalizações reais quando as empresas falham. É preciso que o Estado, enquanto proprietário, assuma o serviço público como prioridade. Enquanto tal não acontece, Lisboa continuará refém de um metro que não responde às necessidades da cidade e dos lisboetas. Continuaremos a assistir a escadas rolantes paradas, a elevadores avariados, a composições atrasadas e sujas, e a um quotidiano de frustração para quem depende deste transporte. O metro de Lisboa, que deveria ser o motor da mobilidade e da modernidade da capital, é hoje um retrato de imobilismo e degradação. O que está em causa já não é apenas a qualidade de um serviço: é a credibilidade da gestão pública e o direito dos cidadãos a uma mobilidade acessível e eficiente.

Agosto de 2025

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