Em Março de 1986, a Fundação Calouste Gulbenkian inaugurou A Arquitectura na Banda Desenhada, com originais de Hergé e de Schuiten, entre muitos outros. Eu tinha pouco mais de seis anos e não a vi, mas conheço-a pelas fotografias e pelo catálogo, e é quanto basta para lhe medir a importância. Integrada no programa BD Boom da Embaixada de França, a mostra foi concebida pelo Institut Français d'Architecture, então com apenas cinco anos, e organizada em parceria com a Gulbenkian, que a acolheu no Centro de Arte Moderna. A ambos devemos um gesto pioneiro, o de pôr a banda desenhada a falar de arquitectura num museu. Foi a esse catálogo, que ainda guardo, que regressei ao preparar U/Dopia, exposição que integra o FORMA, festival de arquitectura, e inaugura a 24 de Setembro na Casa das Caldeiras, sede da Secção Regional do Centro da Ordem dos Arquitectos.
Quarenta anos depois, esse diálogo está longe de esgotado. Antes de ser edifício ou vinheta, a cidade é um traço, e é esse traço que une o arquitecto ao autor de banda desenhada, com uma diferença, a banda desenhada junta-lhe o tempo, as pessoas e as utopias.
Alguns arquitectos perceberam cedo essa força narrativa. Em Outubro de 1925, Le Corbusier explicou a Madame Meyer, numa carta desenhada, a casa que lhe projectava em Neuilly, com perspectivas legendadas que a conduziam da entrada ao terraço-jardim, quase uma prancha de banda desenhada.
Os anos sessenta foram o tempo das utopias desenhadas. Em 1964, o grupo Archigram dedicou à ficção científica dos comics o número Zoom da sua revista, e a Walking City de Ron Herron pôs a cidade a andar sobre pernas telescópicas. Em França, o filósofo Paul Virilio encontrou nos desenhos de Claude Parent, seu parceiro no grupo Architecture Principe, a imagem da «função oblíqua», uma cidade feita de planos inclinados. Em 1972, Rem Koolhaas apresentou na Architectural Association, em Londres, Exodus, uma sequência de desenhos e colagens que o MoMA lê como um storyboard, herança dos anos em que foi jornalista e argumentista. Seis anos depois, em Delirious New York, fez dos arranha-céus de Manhattan personagens de uma narrativa, e a capa, pintada por Madelon Vriesendorp, mostra o Empire State e o Chrysler Building deitados na mesma cama.
Jean Nouvel preferiu entregar o lápis a outros e, na exposição que o Louisiana Museum of Modern Art lhe dedicou em 2005, convidou autores de BD a desenhar espaços ainda por construir, alguns deles para o bairro de Alcântara-Mar em Lisboa. Em 2009, Herzog & de Meuron, através do ETH Studio Basel, publicaram o MetroBasel Comic, perto de trezentas páginas sobre a região de Basileia guiadas por Patricia e Michel, o casal de À bout de souffle. No mesmo ano, o BIG de Bjarke Ingels transformou a sua primeira grande exposição individual numa tira de cento e trinta metros e publicou Yes is More, que se assume como o archicomic.
Numa época dominada pelo render hiper-realista, as vinhetas de quadrados devolvem ao projecto a narrativa e, sobretudo, a vida. Bem usada, a banda desenhada é talvez a forma mais democrática de explicar a um cidadão o que um plano de pormenor em discussão pública nunca lhe dirá. Será que precisamos de menos renders e de mais vinhetas?
Em Portugal, esta ligação tem raízes na própria profissão. O arquitecto Cottinelli Telmo, autor da Estação Fluvial Sul e Sueste, dirigiu a partir de 1921 o ABC-zinho, a primeira revista portuguesa de banda desenhada, e desenhou ele próprio muitas das suas histórias. Também Pancho Guedes encontrou nos desenhos de energia cromática um intenso caminho de diálogo para a expressão dos seus edifícios. O desenho de António Alfredo no n.º 60 da revista Arquitectura lembra que esta conversa passou também pelas revistas de arquitectura. Pitum Keil do Amaral, por seu lado, enviou aos amigos durante quase setenta anos postais desenhados por si, reunidos em 2023 no livro Boas Festas. Precisamos delas a Vida Inteira, nos quais a suas pequenas histórias, o humor serve de crítica social e não poupa as questões da habitação. Em 2015, nos 25 anos do Público, Álvaro Siza ofereceu ao jornal uma “história aos quadradinhos (ou retangulosinhos)”, como lhe chamou.
A herança prolonga-se em arquitectos que fazem banda desenhada. Pedro Burgos desenhou para o Jornal Arquitectos crónicas da profissão, depois reunidas em livro, e em O Colecionador de Tijolos segue um homem que perde o emprego num atelier e encontra ocupada a casa dos avós que queria reabilitar, numa cidade ferida pela especulação. Francisco Sousa Lobo, que se dedicou dez anos à arquitectura, fez de O Desenhador Defunto o retrato de um projectista perdido entre programas digitais num atelier londrino.
Noutros autores, são a cidade e os seus edifícios que ganham voz. Luís Louro mergulhou Lisboa debaixo de água em Alice na Cidade das Maravilhas e voltou a fazê-la co-protagonista em Watchers, e Ricardo Cabral reuniu em Pontas Soltas: Lisboa histórias curtas passadas nas suas ruas. Em Balada para Sophie, Filipe Melo e Juan Cavia, este também director de arte de cinema, fazem dos teatros e auditórios onde dois pianistas se enfrentam uma vida inteira muito mais do que cenário.
A arquitectura pode ser ainda ameaça ou abrigo. Em Terminal Tower, André Coelho e Manuel João Neto isolam um homem no topo de uma torre que parece ganhar vida própria, num futuro já em ruína. Em Desvio, Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho fazem da casa, em pleno Verão, o território de um adolescente que resiste à mudança.
No título da exposição, a barra que separa a utopia da distopia é estreita, cabe num único traço. E é nesse traço, o do arquitecto e o do autor de banda desenhada, que continuamos a decidir de que lado fica a cidade.


