26/09/26

U/DOPIA - UTOPIAS E DISTOPIAS GRÁFICAS






Em Março de 1986, a Fundação Calouste Gulbenkian inaugurou A Arquitectura na Banda Desenhada, com originais de Hergé e de Schuiten, entre muitos outros. Eu tinha pouco mais de seis anos e não a vi, mas conheço-a pelas fotografias e pelo catálogo, e é quanto basta para lhe medir a importância. Integrada no programa BD Boom da Embaixada de França, a mostra foi concebida pelo Institut Français d'Architecture, então com apenas cinco anos, e organizada em parceria com a Gulbenkian, que a acolheu no Centro de Arte Moderna. A ambos devemos um gesto pioneiro, o de pôr a banda desenhada a falar de arquitectura num museu. Foi a esse catálogo, que ainda guardo, que regressei ao preparar U/Dopia, exposição que integra o FORMA, festival de arquitectura, e inaugura a 24 de Setembro na Casa das Caldeiras, sede da Secção Regional do Centro da Ordem dos Arquitectos.

Quarenta anos depois, esse diálogo está longe de esgotado. Antes de ser edifício ou vinheta, a cidade é um traço, e é esse traço que une o arquitecto ao autor de banda desenhada, com uma diferença, a banda desenhada junta-lhe o tempo, as pessoas e as utopias.

Alguns arquitectos perceberam cedo essa força narrativa. Em Outubro de 1925, Le Corbusier explicou a Madame Meyer, numa carta desenhada, a casa que lhe projectava em Neuilly, com perspectivas legendadas que a conduziam da entrada ao terraço-jardim, quase uma prancha de banda desenhada.
Os anos sessenta foram o tempo das utopias desenhadas. Em 1964, o grupo Archigram dedicou à ficção científica dos comics o número Zoom da sua revista, e a Walking City de Ron Herron pôs a cidade a andar sobre pernas telescópicas. Em França, o filósofo Paul Virilio encontrou nos desenhos de Claude Parent, seu parceiro no grupo Architecture Principe, a imagem da «função oblíqua», uma cidade feita de planos inclinados. Em 1972, Rem Koolhaas apresentou na Architectural Association, em Londres, Exodus, uma sequência de desenhos e colagens que o MoMA lê como um storyboard, herança dos anos em que foi jornalista e argumentista. Seis anos depois, em Delirious New York, fez dos arranha-céus de Manhattan personagens de uma narrativa, e a capa, pintada por Madelon Vriesendorp, mostra o Empire State e o Chrysler Building deitados na mesma cama.

Jean Nouvel preferiu entregar o lápis a outros e, na exposição que o Louisiana Museum of Modern Art lhe dedicou em 2005, convidou autores de BD a desenhar espaços ainda por construir, alguns deles para o bairro de Alcântara-Mar em Lisboa. Em 2009, Herzog & de Meuron, através do ETH Studio Basel, publicaram o MetroBasel Comic, perto de trezentas páginas sobre a região de Basileia guiadas por Patricia e Michel, o casal de À bout de souffle. No mesmo ano, o BIG de Bjarke Ingels transformou a sua primeira grande exposição individual numa tira de cento e trinta metros e publicou Yes is More, que se assume como o archicomic.

Numa época dominada pelo render hiper-realista, as vinhetas de quadrados devolvem ao projecto a narrativa e, sobretudo, a vida. Bem usada, a banda desenhada é talvez a forma mais democrática de explicar a um cidadão o que um plano de pormenor em discussão pública nunca lhe dirá. Será que precisamos de menos renders e de mais vinhetas?

Em Portugal, esta ligação tem raízes na própria profissão. O arquitecto Cottinelli Telmo, autor da Estação Fluvial Sul e Sueste, dirigiu a partir de 1921 o ABC-zinho, a primeira revista portuguesa de banda desenhada, e desenhou ele próprio muitas das suas histórias. Também Pancho Guedes encontrou nos desenhos de energia cromática um intenso caminho de diálogo para a expressão dos seus edifícios. O desenho de António Alfredo no n.º 60 da revista Arquitectura lembra que esta conversa passou também pelas revistas de arquitectura. Pitum Keil do Amaral, por seu lado, enviou aos amigos durante quase setenta anos postais desenhados por si, reunidos em 2023 no livro Boas Festas. Precisamos delas a Vida Inteira, nos quais a suas pequenas histórias, o humor serve de crítica social e não poupa as questões da habitação. Em 2015, nos 25 anos do Público, Álvaro Siza ofereceu ao jornal uma “história aos quadradinhos (ou retangulosinhos)”, como lhe chamou.
 
A herança prolonga-se em arquitectos que fazem banda desenhada. Pedro Burgos desenhou para o Jornal Arquitectos crónicas da profissão, depois reunidas em livro, e em O Colecionador de Tijolos segue um homem que perde o emprego num atelier e encontra ocupada a casa dos avós que queria reabilitar, numa cidade ferida pela especulação. Francisco Sousa Lobo, que se dedicou dez anos à arquitectura, fez de O Desenhador Defunto o retrato de um projectista perdido entre programas digitais num atelier londrino.
Noutros autores, são a cidade e os seus edifícios que ganham voz. Luís Louro mergulhou Lisboa debaixo de água em Alice na Cidade das Maravilhas e voltou a fazê-la co-protagonista em Watchers, e Ricardo Cabral reuniu em Pontas Soltas: Lisboa histórias curtas passadas nas suas ruas. Em Balada para Sophie, Filipe Melo e Juan Cavia, este também director de arte de cinema, fazem dos teatros e auditórios onde dois pianistas se enfrentam uma vida inteira muito mais do que cenário.

A arquitectura pode ser ainda ameaça ou abrigo. Em Terminal Tower, André Coelho e Manuel João Neto isolam um homem no topo de uma torre que parece ganhar vida própria, num futuro já em ruína. Em Desvio, Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho fazem da casa, em pleno Verão, o território de um adolescente que resiste à mudança.

No título da exposição, a barra que separa a utopia da distopia é estreita, cabe num único traço. E é nesse traço, o do arquitecto e o do autor de banda desenhada, que continuamos a decidir de que lado fica a cidade.


 

14/09/26

Doze contra um




Em 1957, Sidney Lumet realizou Doze Homens em Fúria. É uma obra extraordinária, à qual tento revisitar sempre que posso! Doze jurados fecham-se numa sala de Nova Iorque para decidir a sorte de um rapaz onde todos os indícios indicam que só ele poderá ser o alegado homicida. Está calor. A ventoinha não trabalha. Muitos deles com compromissos lá fora. A grande maioria sem vontade de ali estar. À primeira votação, onze mãos sobem de um lado e uma mão fica sozinha do outro lado da mesa.

Costuma contar-se esta história como a do homem que resistiu, e é isso, mas não é só isso. O que se passa naquela sala é também uma questão de pressa e negligência. Nenhum daqueles homens é mal intencionado. Têm calor, pouco tempo para se debruçar sobre o assunto, alguns com bilhetes para o jogo no bolso, e sobretudo têm a certeza tranquila de que aquilo que foi exposto em audiência, é claro e óbvio! O adversário do filme não é a maioria. São as convicções com a pressa do relógio na parede...

Quem já se sentou a uma mesa com muitos lugares reconhece aquela sala. Uma decisão tomada por quase todos é, quase sempre, uma boa notícia, porque quer dizer que pessoas diferentes olharam para a mesma coisa e viram o mesmo. Mas a unanimidade tem duas faces e vistas de fora, são iguais. Pode ser que o assunto estivesse claro. Pode ser que ninguém tenha olhado. Depois escreve-se a acta, e a acta trata as duas com a mesma cortesia, porque a acta guarda o resultado e não guarda o olhar.

Vale a pena pensar em quem levanta a mão sozinho. O drama dura horas. Não é um instante de bravura, é uma tarde inteira, onde a razão trava a ida para casa de 12 pessoas. A pressão que se exerce sobre essa pessoa não é hostil, é pior do que isso, é razoável. Pedem-lhe bom senso e perguntam-lhe se vale a pena. Lembram-lhe que a decisão sai na mesma. E a certa altura dá-se a inversão silenciosa que existe em todas as salas com pressa, aquela em que quem levanta o braço para perguntar deixa de estar a fazer o seu trabalho e passa a estar a atrasar o dos outros. Ficar depois disso exige uma determinação que não se parece com heroísmo nenhum, porque é feita de pequenas recusas repetidas, uma atrás da outra, até ao fim da tarde.

E há o trabalho, que é a parte que ninguém vê e a única que interessa. Aquele jurado não convence a sala por falar melhor do que os outros. Convence porque foi a uma loja do bairro comprar uma navalha igual à do processo e porque pediu a planta da casa do homem que dizia ter ouvido. Convence, sobretudo, porque se levantou da cadeira para cronometrar, ali no chão, o tempo que um velho leva a atravessar um corredor. Chegou com dúvidas concretas em vez de chegar com um sentimento. É isso que distingue a convicção da teimosia, e é por isso que uma dúvida trabalhada vale mais do que onze certezas que ninguém foi conferir.
Quem vota contra fica ainda com uma obrigação que os outros não têm. A maioria pode limitar-se a votar. Quem discorda tem de se explicar por escrito, com datas e com números, num papel que qualquer pessoa possa conferir daqui a dez anos. É um esforço desproporcionado e é bom que o seja, porque é ele que separa a discordância fundamentada do mau perder. Quem levanta a mão sozinho e não escreve nada fez um gesto. Quem escreve deixou um documento.

No filme, a dúvida de um vai contagiando a sala e no fim tudo se inverte. Fora do filme quase nunca se inverte. E mesmo assim vale a pena, porque um lugar que guarda as suas dúvidas por escrito pode, muitos anos depois, encontrar a curva onde se enganou. Um lugar que só guarda resultados repete-se, porque o erro só é evitável para quem consegue reconstituir como é que lá chegou da primeira vez.

Se a sala muda, o mérito não é só de quem duvidou. É também dos outros onze, que aceitaram olhar segunda vez para aquilo que julgavam já ter visto, e que disseram em voz alta, diante uns dos outros, que tinham votado depressa de mais. Uma dúvida sozinha, por mais bem fundamentada que seja, não chega a lado nenhum numa sala que não esteja disposta a recuar. Essa disponibilidade não vem em estatuto nenhum, nem podia vir. 

Ou está na sala, ou não está.


 

04/09/26

O Pinhal de Carcavelos




Há um pinhal em Carcavelos plantado no início do século XX. Um bastião de natureza em forma de trapézio junto à linha de mar, tendo ao fundo a serra de Sintra. É a última mata contínua da Linha do Estoril, cinquenta e dois hectares de solo permeável a poucos metros da praia, refúgio de centenas de espécies que deve servir de fator de ponderação para uma ocupação do litoral sul do concelho em equilíbrio, seja ele urbanístico seja na relação entre o natural e construído.

Há um pinhal em Carcavelos que antes foi vinha. A Quinta Nova de Santo António, fundada no século XVIII, foi fazenda de recreio e produção dos morgados da Alagoa, e dela saíram inúmeras pipas do famoso vinho de Carcavelos. Entre 1808 e 1812 serviu de reduto à retaguarda do forte de São Julião da Barra, na terceira linha das Linhas de Torres erguida contra Napoleão, e em 1832 voltou a ser aquartelamento nas guerras entre absolutistas e liberais. Viu depois, em 1878, a filoxera reduzir-lhe a vinha a escassos trinta hectares.

Há um pinhal em Carcavelos que deve o nome aos ingleses. A partir de 1870 dali partiram os primeiros cabos telegráficos submarinos amarrados em Portugal, e com as companhias telegráficas chegaram os funcionários britânicos que ali se instalaram. Foram eles que puseram o país a jogar futebol num campo de terra batida, e foi na casa senhorial da quinta que se instalou, no início do século XX, a Saint Julian's School. Ficou o nome, ficou a escola e ficou o pinhal, plantado por essa mesma gente entre 1900 e 1920.
Há um pinhal em Carcavelos onde se tenta construir há mais de sessenta anos. A primeira oposição veio do ministro das Obras Públicas de Salazar, que travou a operação. Seguiram-se décadas de projectos chumbados por nunca reunirem as aprovações necessárias. Só em 2014 o Plano de Pormenor do Espaço de Reestruturação Urbanística de Carcavelos Sul, o PPERUCS, foi aprovado por um voto de diferença, com o voto da então presidente da Junta de Freguesia de Carcavelos contra a posição maioritária da sua Assembleia. Sessenta anos de recusas e um voto de vantagem. É esta a base de legitimidade que hoje se invoca como se fosse consenso. Convém dizer o que daí resulta, porque é aí que a aritmética se torna indecente. Oitocentos e cinquenta apartamentos em lotes que chegam a sete pisos acima do solo e cinco abaixo, hotelaria e zonas comerciais. De quinhentos e quarenta mil metros quadrados de área verde resta menos de cem mil, e desses, vinte mil ficam do outro lado da estrada e oitenta mil englobam o leito da ribeira, campos de jogos e estacionamentos. O que fica é pouco mais do que um jardim cercado, em troca de uma mata equivalente a cerca de doze Praças do Comércio.

Há um pinhal em Carcavelos em que os proprietários dirão que têm direito a construir. Ser dono de um terreno nunca deu direito a edificá-lo, porque a edificabilidade nasce de um acto público de ordenamento do território, confiado ao Estado e aos municípios para arbitrar o equilíbrio entre o interesse privado e o bem comum. E o ordenamento tem uma hierarquia, aqui invertida, porque um plano de pormenor não pode contrariar os que lhe são superiores. A própria CCDR de Lisboa e Vale do Tejo afirmou que o PPERUCS foi elaborado sobre a realidade de 2011 e desrespeita normas em vigor, cabendo à Câmara Municipal de Cascais revogá-lo. O que aqui se exerce já não é planeamento, é alegada discricionariedade administrativa, a faculdade de escolher o que se verifica, o que se ignora e sobretudo quando se decide.
Perde-se biodiversidade instalada há um século e liberta-se de uma só vez o carbono que estas árvores levaram cem anos a fixar. Perde-se a permeabilidade do solo e alteram-se os regimes de vento, acelerando a erosão da maior praia entre Lisboa e Cascais. Perde-se sobretudo o que o artigo 66.º da Constituição manda proteger, um ambiente de vida humano e a qualidade das povoações no plano arquitectónico, que é matéria de direito fundamental e não de negociação urbanística.

A paisagem deixou de ser uma categoria estética para se tornar instrumento de política urbanística e climática. A Convenção Europeia da Paisagem, que Portugal ratificou em 2005, obriga o Estado a reconhecê-la juridicamente como componente essencial do ambiente humano, na mesma linha do preceito constitucional, e a integrá-la nas políticas de ordenamento do território. E vale para todas as paisagens, não apenas para as que já mereceram classificação. Uma mata contínua desta dimensão modera as temperaturas de toda a Linha e retém a água que um solo selado devolve à rede em minutos, e defendê-la não é nostalgia, é a mais elementar manifestação de conhecimento técnico e científico sobre estas matérias, e é a medida de adaptação mais barata e mais imediata de que o território dispõe. Nenhuma infra-estrutura instalada terá capacidade de repor ou de mimetizar o que cem anos de crescimento construíram.

Foi essa a posição que o XXIX Congresso Mundial de Arquitectos da UIA fixou em Barcelona, em Julho passado. A Declaração de Barcelona, lida no encerramento dos trabalhos, começa por afirmar que o planeta não negoceia, e dos seis compromissos que enuncia dois dizem directamente respeito ao que aqui está em causa, o de que cada implantação sobre o território é espaço que se retira ou se preserva para outras espécies, e o de que toda a acção de construir tem consequências que ultrapassam os seus próprios limites. Seria estranho, mas não assim tão estranho por estas paragens, que a CM de Cascais decidisse agora, em sentido contrário, aquele que é o entendimento e recomendação dos especialistas de cento e trinta países.

Uma Quinta para a qual não faltam saídas, talvez falte vontade. A Assembleia da República aprovou por maioria a classificação da área como paisagem protegida, e o próprio Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas reconheceu que nada impede a classificação de âmbito local, que compete ao município. Existem fundos do Plano de Recuperação e Resiliência para reabilitar áreas verdes. Existe a permuta por solo com capacidade construtiva, existe a transferência de edificabilidade por perequação, e existe a expropriação, cujo valor, na falta de acordo, é fixado pelo tribunal, exactamente como sucedeu no terreno contíguo onde hoje está a Nova SBE.
 
Há um pinhal em Carcavelos... foi plantado por gente que não o chegou a ver crescido, e resistiu a duas guerras, a uma praga e a meio século de planos urbanos. É património e por essa via, é também riqueza! Nenhuma geração tem o direito de ser a última a usufruir dele...