RUY JERVIS D'ATHOUGUIA Macau, 1917 — Lisboa, 2006
Um nome, uma escolha Ao instituir, na sua primeira edição, o Prémio Regional de Arquitetura de Lisboa e Vale do Tejo, a Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos quis dar-lhe um nome que fosse, em si mesmo, um pequeno manifesto. Escolheu Ruy Jervis d’Athouguia. Não por se tratar de uma figura institucional, nem por ser o mais celebrado dos arquitetos modernos portugueses — porque não foi, mas precisamente porque a sua obra, discreta e exigente, encarna com particular clareza aquilo que este Prémio pretende distinguir: uma arquitetura simples e expressiva, atenta ao lugar, à luz e às pessoas, fiel a uma modernidade entendida como ética e não como estilo. Coautor do Bairro das Estacas e do conjunto da Fundação Calouste Gulbenkian, duas das obras que, provavelmente, mais profundamente desenharam a paisagem urbana da Cidade de Lisboa no século XX , Athouguia deixou um legado que vive sobretudo nesta região, e que continua a oferecer aos arquitetos de hoje uma referência rara: a de um trabalho que envelheceu sem perder atualidade. Dar o seu nome a este Prémio é, antes de mais, comprometermo-nos com essa exigência.
BIOGRAFIA
Origens e formação (1917–1948)
Ruy de Sequeira Manso Gomes Palma Jervis d’Athouguia Ferreira Pinto Basto nasceu em Macau, na freguesia da Sé, a 1 de janeiro de 1917. Era filho primogénito de Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto, de ascendência inglesa, oficial da Marinha em comissão no Oriente, e de Emília de Sequeira Manso Gomes Palma, natural de Beja. Em 1919, com apenas dois anos, perdeu o pai, em Macau. A família regressa a Portugal e instala-se sobretudo na zona de Cascais, onde Athouguia viveria a maior parte da vida.
Estudou no Colégio Militar entre 1927 e 1936. Concluído o ensino secundário, ingressou no curso de Arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Em 1940, solicitou transferência para a Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde teve como colegas, entre outros, Nadir Afonso e João Andresen, irmão da poetisa Sophia de Mello Breyner. Concluiu a parte escolar do curso em 1944 e regressou nesse mesmo ano a Lisboa, iniciando a sua atividade profissional. Apresentou em 1947 o Concurso para Obtenção do Diploma de Arquiteto (CODA), com o projeto intitulado «Uma Moradia», obtendo o grau formal de arquiteto em 1948. Os primeiros anos de prática profissional, em Lisboa, decorrem em colaboração com arquitetos como Veloso dos Reis Camelo, Filipe Nobre de Figueiredo e Sebastião Formosinho Sanchez, este último seu condiscípulo e amigo de toda a vida, com quem viria a assinar algumas das suas obras mais marcantes.
Os primeiros anos e o Bairro das Estacas (1947–1955)
A primeira obra construída de Athouguia data de 1947: a Casa Solomon J. Brown, em Carcavelos. Seguir-se-iam, no final dos anos 40 e início dos anos 50, várias casas unifamiliares na linha de Cascais, a Casa Kurt Voltz (1949–1952), a Casa Maria Amélia Burnay (Cascais, 1949–1951) e a sua própria casa, em Cascais (1951–1953), e o Cineteatro de Abrantes (1947–1949), uma das suas primeiras incursões no programa público.
Mas é o Bairro das Estacas, integrado na Célula 8 do Plano de Urbanização de Alvalade, que o coloca definitivamente no centro da renovação arquitetónica portuguesa. Projetado a partir de 1949 com Sebastião Formosinho Sanchez, com arranjos exteriores do então jovem arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, e construído entre 1952 e 1955, o conjunto rompe com o modelo do quarteirão fechado herdado da urbanística tradicional e propõe, pela primeira vez de forma plenamente consequente em Portugal, uma aplicação dos princípios da Carta de Atenas (1933).
Para contornar o regulamento das casas económicas, que impunha um máximo de quatro pisos servidos por escada coletiva, sem elevador, Athouguia e Formosinho Sanchez articularam os pisos superiores em duplex, um dispositivo então inédito em Portugal, e que revela o virtuosismo com que conciliaram a doutrina moderna com a estrita realidade legal e construtiva do país. O Bairro das Estacas foi distinguido em 1954 com o Prémio Municipal de Arquitetura da Câmara Municipal de Lisboa e com uma Menção Honrosa na II Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, bienal cujo júri integrava, entre outros, Le Corbusier, Alvar Aalto, Josep Lluís Sert e Ernesto Nathan Rogers.
As escolas de Alvalade (1949–1965)
Ainda no quadro do Plano de Alvalade, Athouguia projetou um conjunto de equipamentos escolares que constituem um capítulo notável da sua obra. A Escola Primária do Bairro de São Miguel (1949–1953, em coautoria com Formosinho Sanchez), distinguida em São Paulo em 1954 e classificada Monumento de Interesse Público em 2022, introduz no programa escolar primário soluções de grande pureza moderna, com brise-soleil adaptados a janela contínua, ventilação cruzada e relação aberta entre sala de aula e recreio.
Seguiram-se a Escola Primária da Célula 8, hoje Escola Básica Teixeira de Pascoaes (1956–1961), composta por um sistema pavilhonar de volumes abstratos e de notável depuração formal, e o Liceu Masculino de Alvalade, hoje Escola Secundária Padre António Vieira (1959–1965), em que o tema do edifício escolar atinge uma escala urbana mais ambiciosa. Estes três equipamentos, uma escola primária pequena, uma escola intermédia e um liceu, formam, no seu conjunto, um percurso pedagógico do próprio arquiteto sobre o programa escolar, e demonstram a consistência com que Athouguia adaptou a linguagem moderna a tipologias muito diversas.
Habitação, equipamentos e a obra dispersa (1947–1970)
Em paralelo, Athouguia desenvolve uma vasta carteira de encomendas privadas, sobretudo no concelho de Cascais, onde habitualmente vivia. Entre as obras mais reconhecidas deste período contam-se a Casa Sande e Castro (Cascais, 1954–1956), hoje considerada uma das casas modernas portuguesas mais importantes da segunda metade do século XX, a que Graça Correia Ragazzi dedicou uma monografia autónoma, a Casa Pinto da Costa (Cascais, 1957–1960), o Bairro de Habitação da Federação das Caixas de Previdência (Cascais, 1957–1960) e a Torre do Infante (Cascais, 1960–1965). A sua atividade estende-se a habitação coletiva, hotelaria, pousadas, dependências bancárias, lojas, centros cívicos e comerciais, em quase todo o território nacional. Vários dos seus projetos mais ousados ficaram, porém, por construir. O caso mais célebre é o da Pousada da Nazaré, para a qual chegou a desenvolver três versões sucessivas, todas reprovadas pelo Serviço Nacional de Informações por serem consideradas «demasiado modernas».
Trabalhou sempre como profissional liberal, ainda que, por períodos breves, tenha sido arquiteto na Câmara Municipal de Cascais e consultor urbanista nas Câmaras Municipais do Montijo e de Beja, e tenha dirigido o gabinete técnico da firma Habitat, em Algés. O seu atelier ficou instalado no Palácio Andrade Lumiares, na Rua de S. Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, em Lisboa.
A Fundação Calouste Gulbenkian (1959–1969)
O projeto da Sede e Museu da Fundação Calouste Gulbenkian é, indiscutivelmente, o ponto mais alto da carreira de Athouguia, e uma das obras mais relevantes da arquitetura portuguesa do século XX. Resultou de um concurso por convite limitado, lançado em 1959 e julgado em 1960, para o qual a Administração da Fundação convidou três equipas de três arquitetos: uma formada por Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia (a equipa vencedora); outra por Arménio Losa, Sebastião Formosinho Sanchez e Pádua Ramos; e uma terceira por Frederico George, Manuel Laginha e Arnaldo Araújo. Os trabalhos foram acompanhados por um painel de consultores nacionais e internacionais que reunia Francisco Keil do Amaral, Carlos Ramos, Sir Leslie Martin, William Allen, George-Henri Rivière e Franco Albini.
A construção iniciou-se em 1962, sob direção de Luís Guimarães Lobato, e o conjunto ( Sede, Museu, Auditórios e Biblioteca), foi inaugurado a 2 de outubro de 1969, no ano do centenário do nascimento de Calouste Gulbenkian. O projeto integrou desde o início os arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles, responsáveis pelo desenho do Parque envolvente, no antigo Parque de Santa Gertrudes, e envolveu ainda uma vasta equipa de artistas e designers, entre os quais José de Almada Negreiros (autor do painel «Começar», na entrada da Sede), João Abel Manta, Jorge Barradas, Artur Rosa, Vítor Fortes, Manuela Jorge, Eduardo Anahory e Daciano da Costa.
Concebido como um grande centro cultural horizontal, de volumes laminares e modulares assentes numa relação franca com o jardim, o conjunto Sede–Museu sintetiza o ideário moderno que Athouguia perseguia desde os anos 40: rigor geométrico, sobriedade de materiais, betão à vista, pedra e vidro bronze no exterior; madeira, pedra e alcatifa no interior, integração paisagística e atenção minuciosa ao detalhe. Numa entrevista posterior, Athouguia descreveu o trabalho dos três arquitetos como uma busca partilhada de «uma certa verdade».
O conjunto recebeu o Prémio Valmor de Arquitetura em 1975 e, em dezembro de 2010, foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 18/2010, diploma que pela primeira vez integrou obras arquitetónicas contemporâneas no património classificado português, ao lado, na mesma data, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Athouguia faleceu quatro anos antes desta consagração.
Outros projetos e parcerias da maturidade
Para além da Fundação Gulbenkian, Athouguia desenvolveu, com Alberto Pessoa e Luís Pessoa, o arranjo urbanístico da Praça de Espanha em Lisboa, o programa-base do Centro de Congressos de Lisboa e o estudo de ordenamento da frente ribeirinha entre a Torre de Belém e a Cordoaria. Colaborou ainda, ao longo da carreira, com nomes como Celestino de Castro, Eduardo Anahory, Fernando Torres e Daciano Costa. O seu acervo profissional, doado em 2000 à Câmara Municipal de Lisboa e atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, reúne cerca de duas centenas de projetos – habitações unifamiliares e plurifamiliares, bairros, escolas, liceus, hotéis, pousadas, lojas, edifícios bancários, centros culturais, produzidos entre 1945 e 1990, com particular incidência no distrito de Lisboa.
A sua produção mais intensa concentra-se entre 1947 e 1974: nesse período, assina cerca de duzentos projetos. Após a Revolução de 1974, o ritmo da prática abranda significativamente, situação atribuída, por críticos como Graça Correia Ragazzi e Eduardo Souto de Moura, ao facto de a sua linguagem rigorosamente moderna ter ficado de fora das releituras críticas que, nas décadas seguintes, privilegiaram autores de matriz mais vernacular. Esta «invisibilidade» de Athouguia, que vários historiadores têm vindo a corrigir desde os anos 2000, é parte do que torna a sua redescoberta hoje tão fértil.
Reconhecimento e últimos anos (1969–2006)
Ao longo da sua vida, Athouguia recebeu várias distinções, embora, segundo testemunhos próximos nunca lhes tenha dado particular importância. Em 31 de outubro de 1969, poucas semanas após a inauguração da Gulbenkian, foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Em 1975 partilhou, com os restantes autores, o Prémio Valmor de Arquitetura. Em 2003, a Ordem dos Arquitectos dedicou-lhe uma exposição retrospetiva no Palácio Galveias, em Lisboa, e em 2005 foi distinguido pela Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Críticos de Arte (AICA) com o seu Prémio de Arquitetura. Continuou a frequentar o seu atelier do Bairro Alto até muito tarde. Faleceu em Lisboa a 21 de julho de 2006, com 89 anos. Casado em 1944 com Maria Domingas Cirilo de Carvalho Pepulim, de quem se divorciaria em 1976, deixou seis filhos.
O lugar na história da arquitetura portuguesa
Pertenceu à geração de arquitetos que, entre o final dos anos 40 e os anos 60, retomou em Portugal o programa do Movimento Moderno, num contexto particularmente adverso: o do Estado Novo, com a sua preferência declarada por uma arquitetura «portuguesa» de feição nacionalista. Ao contrário de outros colegas, Athouguia não fez do confronto político uma plataforma: manteve-se afastado das polémicas, mas também das concessões. A sua escolha foi a da disciplina, uma fidelidade quotidiana, paciente e silenciosa, aos princípios da modernidade, filtrados por uma sensibilidade clássica adquirida na formação portuense e por uma profunda atenção ao lugar, à luz mediterrânica e às pessoas que viriam a habitar os seus edifícios.
A crítica contemporânea, sintetizada na obra de referência de Graça Correia Ragazzi, descreve essa atitude como uma «modernidade em aberto»: nem ortodoxia internacional, nem regionalismo, mas síntese inteligente entre o moderno e o particular, entre o universal e o local. É essa atitude, discreta, rigorosa, aberta, que, mais de meio século depois das suas obras maiores, continua a iluminar a prática de muitos dos arquitetos que hoje trabalham na região de Lisboa e Vale do Tejo. E é por isso que o seu nome encabeça este Prémio.