“a facilidade com que se muda de gravata.”
A reedição do livro «Lisboa uma cidade em transformação», pela Direção da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos, vem reforçar a relevância intemporal e merecida da obra, no contexto do pensamento arquitetónico português do século XX. O processo de reflexão agora iniciado, sobre territórios metropolitanos a partir da transformação urbana de Lisboa durante o século XX, ancora-se a esta edição. A consciência do papel visionário do autor na reflexão crítica sobre o desenvolvimento das “velhas” cidades, será o ponto de partida e orientação para os novos caminhos a trilhar, pelos principais intervenientes no domínio do planeamento e desenho da cidade contemporânea. No atual contexto, em que Lisboa continua a ser palco de grandes transformações, marcadas sobretudo por uma enorme pressão sobre o parque habitacional e o espaço público, «Lisboa uma cidade em transformação», oferece-nos uma reflexão profundamente informada e crítica sobre a Lisboa que despontava no século passado.
Publicado originalmente em 1969 e sem qualquer reedição, há muito que esta iniciativa era desejada entre arquitetos, urbanistas e pensadores dos fenómenos da cidade. São várias as gerações de arquitetos que ainda hoje revisitam a obra, e às novas gerações, é-lhes dada, por via desta reedição, uma oportunidade ímpar de entender e conhecer, volvido meio século, um marco do pensamento crítico português sobre a evolução de Lisboa, enquanto organismo vivo e em constante mutação.
A reedição desta obra faz parte de uma estratégia mais alargada da Ordem dos Arquitectos para promover o estudo e a divulgação de textos e documentos fundadores do pensamento arquitetónico e da arquitetura no nosso país. Assim, «Lisboa uma cidade em transformação» é um documento central não apenas para os arquitetos e urbanistas, mas também para todos quantos se interessam pelo desenvolvimento sustentável das cidades e pela relação, nem sempre equilibrada, entre o espaço edificado e os seus habitantes. Será uma oportunidade para dar a conhecer o contexto, o pensamento e a obra de Francisco Keil do Amaral, e neste sentido, a reedição é também um ato de valorização e salvaguarda do legado intelectual de um dos arquitetos mais Lisboetas do movimento modernista português.
A visão do autor, inovadora para época, sugere a necessidade de uma cidade estruturada, harmoniosa e, sobretudo, mais, humanizada. É um livro que discorre de um modo singular e objetivo, sobre os problemas essenciais das nossas cidades; a urbanização desregulada, o surgimento de novos bairros sem estrutura, organização do espaço público inexistente, e a necessária preservação de monumentos arquitetónicos que, de resto, continuam a ecoar nos desafios da Lisboa de hoje.
A reedição desta obra-prima, mais do que um desejo, era uma obrigação e desígnio para esta direção. Nos preceitos de Francisco Keil do Amaral, também nós sentimos que as cidades “(...) não se modificam com a facilidade com que se muda de gravata. Mas, com largueza de visão e de meios, persistência, devoção e tempo, acabam por dar frutos suculentos.”
Um agradecimento especial ao arquiteto Pitum Keil do Amaral, pela sua enorme generosidade, que irá permitir a todos os arquitetos, em particular às novas gerações, conhecer o pensamento e o humor de Francisco Keil do Amaral.
Setembro de 2024

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