
Prémio Regional de Arquitetura de Lisboa e Vale do Tejo — 1.ª Edição
Há momentos em que uma instituição se define pelas estratégias e pelas iniciativas que decide instituir. A criação do Prémio Regional de Arquitetura de Lisboa e Vale do Tejo - Prémio Ruy d’Athouguia é um desses momentos. Ao instituirmos este prémio, a Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos não está apenas a distinguir obras: está a afirmar uma ideia de Arquitectura, uma ideia de território e uma ideia do papel cultural, social e económico que a profissão tem a obrigação de desempenhar. Está, sobretudo, a assinalar e a reconhecer perante a sociedade civil, aquilo que de melhor se faz, hoje, nesta fantástica região, onde se concentra uma extraordinária diversidade de paisagens, programas, escalas e desafios.
A região de Lisboa e Vale do Tejo é, simultaneamente, capital e província, litoral e interior, urbano denso e rural extenso, monumentalidade histórica e periferia em transformação. É um território nuclear e representativo de um país que se quer moderno, marcado pela presença estruturante do Tejo e dos seus afluentes, onde se condensam de forma exemplar as grandes questões contemporâneas do habitar, da reabilitação, da salvaguarda do património, da indústria, do conhecimento e da regeneração das nossas cidades e vilas.
Mais do que natural, era imperioso a Secção de LVT passasse a contar com um prémio próprio, regular e exigente, capaz de valorizar, divulgar e informar a comunidade da melhor produção arquitetónica que aqui se realiza, de resto a par das restantes Secções da Ordem dos Arquitectos.
Ruy Jervis d’Athouguia
Atribuir a este prémio o nome de Ruy Jervis d’Athouguia (1917–2006) não foi uma homenagem de circunstância nem foi escolha aleatória – foi uma escolha programática e intencional. Ruy d’Athouguia pertence à geração de arquitetos que, a partir do final dos anos 40, retomou e consolidou em Portugal a linguagem do Movimento Moderno, abrindo caminho a uma prática que viria a moldar de forma decisiva a paisagem urbana de Lisboa e da sua região. Coautor do Bairro das Estacas, em Alvalade, e da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, deixou ainda obra notável em escolas, habitação coletiva, casas unifamiliares e equipamentos. Mas o seu legado não se mede apenas em edifícios. Mede-se sobretudo pela sua atitude: matemática na busca e na prática do rigor, pela inovação construtiva e sobretudo pelo humanismo que o caracterizaram, e que continuam hoje a constituir, para tantos de nós, uma referência ética e disciplinar.
Um arquiteto que recusou os fáceis vernáculos que o regime impunha, que filtrou as vanguardas internacionais sem nunca delas se tornar tributa rio, que pensou a arquitetura a partir do lugar, das pessoas, da luz e da escala humana. Numa entrevista célebre, definia-se assim enquanto arquiteto que gostava de uma arquitetura simples, verdadeira, expressiva, do jogo da luz e das formas abertas. Esta definição é, em si mesma, um pequeno manifesto, e é também, em larga medida, aquilo que pretendemos premiar com a iniciativa que agora apresentamos. Distinguir obras que, à semelhança das que ele nos legou, sejam simples sem serem banais, expressivas sem serem espalhafatosas, abertas ao tempo e ao lugar, e profundamente comprometidas com a sua função e com quem as usa.
A “modernidade em aberto” com que a crítica caracterizou a obra de Ruy d’Athouguia é, aliás, espelha exatamente aquilo que este prémio quer ser: - um espaço de avaliação que não se fecha em estilos nem em escolas, que reconhece a pluralidade legítima das respostas arquitetónicas contemporâneas, e que mantém em aberto a pergunta sobre o que é, hoje, fazer arquitetura e mais do que isso, fazer boa arquitetura, na região de Lisboa e Vale do Tejo.
Um prémio com objetivos claros
O Regulamento do Prémio Ruy d’Athouguia é explícito quanto ao seu propósito. Trata-se de um prémio de âmbito regional, de natureza honorífica, cultural e institucional, com periodicidade bienal, dedicado a distinguir obras de reconhecida qualidade arquitetónica realizadas na área geográfica desta Secção Regional. Os seus objetivos são quatro, e merecem ser aqui recordados, porque iluminam tudo o que se segue: Valorizar e promover a divulgação do trabalho desenvolvido pelos arquitetos na região; premiar obras que, pela sua qualidade e rigor, contribuam para a criação e salvaguarda da segurança e qualidade de vida dos cidadãos, do património arquitetónico e paisagístico, disseminar boas práticas arquitetónicas e construtivas; e, por fim, suscitar literacia e interesse da sociedade civil pela arquitetura, através da exposição pública das melhores obras.
O prémio organiza-se em três categorias: Edificação Nova, Reabilitação e Salvaguarda do Património, que correspondem com fidelidade às frentes onde hoje se joga, em Portugal, o essencial da prática arquitetónica. A inclusão de uma categoria autónoma para a Salvaguarda do Património, em particular, traduz a consciência de que o nosso território é, em larga medida, já um território construído, e de que a transmissão qualificada desse legado às gerações futuras exige competências, conhecimento, e responsabilidade específicas, que devem ser acarinhadas, reconhecidas e celebradas.
A avaliação foi feita à luz de critérios claros, qualidade da solução arquitetónica, originalidade e inovação, adequabilidade das soluções técnicas e construtivas, sustentabilidade e eficiência energética, e resultou de uma apreciação crítica global, não submetida em boa medida a ponderações matemáticas, como convém a um exercício desta natureza.
Uma parceria estruturante
Esta primeira edição não teria sido possível, ou não teria a abrangência institucional que tem, sem o protocolo de cooperação celebrado entre a Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT).
Um protocolo, que reforça a articulação institucional entre as duas entidades em matérias como a valorização do património arquitetónico da região e a promoção da arquitetura enquanto instrumento de desenvolvimento regional, e que encontra no Prémio Ruy d’Athouguia um dos seus eixos mais visíveis. De forma especial, a CCDR-LVT é parceira no domínio da Salvaguarda do Património, indicando um dos elementos do júri e contribuindo, com a sua experiência técnica e o seu olhar territorial, para que esta categoria seja avaliada com a profundidade e o rigor que se exige.
Trata-se de uma cooperação oportuna e profícuo em todas as suas dimensões, técnica, cultural e política, e que abre caminho a futuras iniciativas comuns. Quero, por isso, deixar uma palavra pública de agradecimento à Presidente da CCDR-LVT, Arquiteta Teresa Almeida, e à sua equipa, pela confiança e pela disponibilidade com que abraçaram este projeto desde a primeira hora.
A Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo
A Ordem dos Arquitectos tem por missão, entre outras, contribuir para a defesa e promoção da arquitetura, promover o reconhecimento da sua função social e cultural, e zelar pela dignidade e prestígio da profissão. Cabe às Secções Regionais traduzir essa missão à escala dos territórios que servem, e foi neste o sentido que a SRLVT, no presente mandato, se propôs criar um instrumento próprio, exigente e duradouro, capaz de organizar a memória da arquitetura contemporânea da região e de a dar a conhecer à sociedade sob a forma de exposição, de publicação, de debate e de exemplo. Esse trabalho é coletivo envolveu todo o Conselho Diretivo Regional, os serviços da Secção, as arquitetas Inês Lobo e Filipa Gil, colegas que aceitaram integrar o júri, a quem agradecemos a independência, o cuidado e o sentido de responsabilidade com que cumpriram a sua tarefa, e ainda os muitos parceiros institucionais e municipais que, de norte a sul da região, têm acolhido a iniciativa. A todos, o nosso profundo agradecimento e reconhecimento.
As candidaturas, as obras, os autores
Esta primeira edição recebeu 80 candidaturas, das quais 78 foram admitidas após verificação dos requisitos regulamentares. Das candidaturas admitidas, temos 29 em Edificação Nova, 45 em Reabilitação e 6 em Salvaguarda do Património. Estes números, por si só, dizem muito sobre o estado atual da disciplina com uma clara preponderância da reabilitação, confirmando que estamos, enquanto país, numa fase de requalificação do edificado existente, em diálogo permanente com a memória e com novas exigências de uso e de sustentabilidade.
Ao longo deste catálogo encontrarão todos os concorrentes admitidos, com particular destaque para as obras distinguidas com o Prémio em cada categoria e para as que receberam Menção Honrosa. Não cabe a esta nota de abertura comentar individualmente cada projeto, cabe, sim, sublinhar o mais importante – as obras aqui reunidas refletem a vitalidade e o rigor da produção arquitetónica na região de Lisboa e Vale do Tejo, e confirmam a pertinência do prémio como instrumento de valorização e de visibilidade da arquitetura contemporânea portuguesa.
Aos autores premiados, os nossos sinceros parabéns. Aos autores das obras finalistas e a todos os que se candidataram, o agradecimento em nome da Secção, porque sem a sua disponibilidade para se exporem ao escrutínio dos pares, nada disto faria sentido. A Ordem é, antes de mais, aquilo que os seus membros fazem dela.
Os vencedores
Permitam-me, ainda assim, uma palavra sobre cada uma das obras distinguidas com o Prémio nesta primeira edição. Sublinhar, à luz dos valores que enunciei atrás, o que estas três obras representam para a SRLVT e para a região.
Na categoria Edificação Nova, o prémio foi atribuído à Igreja e Centro Social e Paroquial de São José da Boavista, em Lisboa, do Atelier Bugio · João Favila Menezes + Matos Gameiro Arquitectos. É uma obra com programa religioso exigente, social e comunitário, resolvida com sobriedade contida e enorme densidade arquitetónica, demonstrando como a contemporaneidade pode reencontrar, sem nostalgia, a tradição do edifício civil e religioso ao serviço da comunidade.
Na categoria Reabilitação, distinguiu-se o Jardim da Galeria Municipal do Montijo, dos Bak Gordon Arquitectos + RM Arquitectura. Mais do que uma obra de edifício, é uma obra de cidade. Uma intervenção que requalifica o espaço público, articula equipamento e jardim, devolve ao Montijo um lugar de uso quotidiano e simbólico, e exemplifica a importância de pensar a reabilitação à escala do tecido urbano e da vida coletiva, precisamente uma das frentes onde a região tem hoje os maiores desafios.
Na categoria Salvaguarda do Património, o prémio foi para a Reabilitação e Reconversão do Convento de Jesus em Museu, em Setúbal, de João Luís Carrilho da Graça. Trata-se de uma intervenção exemplar sobre um bem cultural de excecional valor, em que a clareza disciplinar do pensar contemporâneo se coloca, com humildade e precisão, ao serviço da pré-existência e da sua transmissão qualificada às gerações futuras. É também, para esta primeira edição, um caso paradigmático daquilo que se pretende premiar nesta categoria, e por isso mesmo um símbolo apropriado da parceria com a CCDR-LVT que tornou possível a sua avaliação.
O júri decidiu ainda atribuir Menções Honrosas a um conjunto significativo de obras nas três categorias, todas elas presentes neste catálogo e na exposição, reconhecendo o mérito e a singularidade de muitas outras intervenções que disputaram o pódio até ao final. Aos seus autores, deixamos igualmente uma palavra de reconhecimento.
A exposição e a sua itinerância
A cerimónia pública de entrega dos prémios realizou-se no 30 de maio de 2026, no Bom Sucesso Resort, em Óbidos, integrada nas comemorações do Dia Regional do Arquiteto, e foi acompanhado pela inauguração da exposição que dá origem a este catálogo. A exposição não termina em Óbidos: passará pela Galeria da Ordem dos Arquitectos e poderá vir a ser apresentada de forma itinerante noutros municípios da região, levando ao maior número possível de cidadãos as obras aqui reunidas. Esta itinerância é, em si mesma, um gesto político no sentido mais nobre da palavra. Significa reconhecer que a arquitetura é assunto de toda a comunidade, e não apenas dos arquitetos, e que a literacia arquitetónica se constrói, paciente e localmente, levando os bons exemplos àqueles que com eles convivem todos os dias.
Continuar...
Encerramos como começamos evocando o nome que escolhemos para este prémio. Ao homenagear Ruy Jervis d’Athouguia, comprometemo-nos com a exigência, de uma arquitetura complexa, verdadeira, expressiva, atenta à luz e ao lugar, comprometida com as pessoas. Ao mesmo tempo, mantemos em aberto, como ele soube fazer, a pergunta sobre o que vem a seguir. As 78 candidaturas desta primeira edição mostram-nos que essa pergunta é fértil, e que a resposta coletiva, plural e exigente, está nas mãos dos arquitetos que continuam a nobre e difícil missão de projetar e construir a região de Lisboa e Vale do Tejo.
Que este prémio seja, edição após edição, um espelho fiel desse trabalho. E que esta primeira edição fique, na memória da nossa Secção Regional, como o ponto de partida de uma iniciativa que veio para ficar.
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