28/08/26




Preservar os traços da memória arquitectónica de uma região

A exposição do Traço à Cidade nasce do desejo de revelar, através do desenho, o modo como os arquitectos pensam e constroem a cidade contemporânea. Trata-se de um projeto colectivo, aberto e plural, que permite reconhecer a vitalidade da Arquitectura praticada na região de Lisboa e Vale do Tejo, território onde se concentram mais de 11 500 arquitetos, cerca de metade da totalidade dos profissionais do país. 

A exposição foi concebida a partir de um pedido singular e exigente: convidar os ateliês e arquitectos da região a representar, num único suporte A4, o seu modo de conceber Arquitectura. Sem hierarquias, sem curadoria selectiva, cada atelier foi desafiado a mostrar um fragmento do seu processo: um desenho, uma maquete, um diagrama, uma colagem, uma renderização, uma fotografia ou uma nota escrita. Uma representação gráfica que traduza o pensamento projectual nas suas múltiplas dimensões: metodológicas, conceptuais, técnicas, intuitivas, analíticas ou poéticas. Não importa a fase a que se refere: estudo prévio, execução, obra ou reflexão posterior, mas sim a forma como cada arquitecto escolheu materializar o raciocínio que antecede e acompanha o acto de projectar. 

O resultado é uma galeria extraordinariamente diversa, um caleidoscópio de linguagens, que coexistem no mesmo espaço, métodos e sensibilidades que testemunham a vitalidade do exercício da profissão. Cada peça é um vestígio material de um processo criativo, uma inscrição física de uma ideia em alguns dos casos em gestação. A singularidade da exposição reside precisamente nessa condição: todas as peças apresentadas são originais, o que confere à mostra um valor documental e patrimonial sem precedentes na história da Ordem dos Arquitectos. Esses cerca de 140 desenhos constituem, no seu conjunto, um retrato vivo da Arquitectura de hoje, na região da Grande Lisboa, constituindo-se como um acervo inaugural de enorme relevância histórica e cultural para a “Casa” dos Arquitectos. 

A montagem da exposição reflete esta filosofia representativa de abertura e de igualdade. As peças foram dispostas sem uma hierarquia predefinida, num sistema expositivo que não privilegia nomes, escalas ou notoriedades. Cada peça ocupa o mesmo espaço e tem o mesmo valor. Decisão curatorial que sublinha o carácter coletivo da mostra: mais do que uma coleção de obras, do Traço à Cidade é uma composição polifonica de gestos e pensamentos que, juntos, traduzem a diversidade e a energia criadora da arquitectura na região. De sublinhar apenas dois casos concretos, exceção à curadoria instituída: o desenho recentemente descoberto do arquitecto Manuel Graça Dias com o arquitecto Egas Viera desenvolvido a pretexto do concurso da sede da Ordem dos Arquitectos e uma peça da autoria do Nuno Portas com Teotónio Pereira em jeito de homenagem ao recente falecimento e concluindo as celebrações em torno do aniversário dos 90 anos em 2025. 

O catálogo prolonga esse propósito, reunindo todas as peças expostas e acrescentando seis “Visões”, encomendadas a investigadores dos seis centros de investigação em arquitetura e território sediados na região de Lisboa (CiTUA; CITAD; Terr.A.ID; DINÂMIA’CET; CIAUD; CEACT). Esses ensaios, que cruzam reflexão crítica, análise e interpretação, ampliam o alcance da exposição: interrogam o papel do desenho na prática contemporânea, o modo como o processo projectual se transforma com as novas tecnologias, e a relação entre o traço individual e a construção coletiva da cidade. Cada texto oferece uma leitura distinta do que significa desenhar, projetar e intervir no território. 

Mas do Traço à Cidade é mais do que uma exposição. É o primeiro passo de um projecto de longo curso da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo: a criação de um Centro de Documentação e Memória da Arquitetura da Região de Lisboa e Vale do Tejo. A recolha destes 140 originais constitui o embrião de um acervo que se pretende vivo e em crescimento, representativo dos arquitectos e ateliers em atividade na região. Através dele, a Ordem dos Arquitectos propõe-se preservar, estudar e divulgar o património gráfico e documental da arquitetura contemporânea, garantindo a sua salvaguarda para as gerações futuras. 

Este Centro de Documentação deverá assumir-se como um espaço de encontro entre a prática e a memória, entre o arquivo e a criação. Pretende acolher espólios, coleções e acervos de arquitetos da região, promovendo a investigação e a valorização do trabalho dos profissionais da Grande Lisboa. É um gesto de responsabilidade, o de reconhecer o valor documental do trabalho dos arquitetos e assegurar que o seu legado, se mantém acessível e partilhado.

Mais do que um repositório, o futuro Centro de Documentação será um espaço ativo de reflexão e de construção de conhecimento. Um lugar onde o desenho não é apenas preservado, mas reinterpretado, contextualizado e devolvido à comunidade, académica, profissional e sociedade civil, enquanto testemunho do pensamento arquitetónico contemporâneo. Iniciativas como a exposição do Traço à Cidade ilustram bem esta ambição: valorizar a diversidade de práticas, incentivar o diálogo entre gerações, e dar a conhecer ao público a riqueza da arquitectura portuguesa contemporânea. 

Num tempo em que a prática da arquitectura se confronta com novas urgências, modelos e práticas, o regresso ao pensamento desenhado é também um gesto de reencontro com a essência da disciplina. É essa a mensagem que esta exposição, e o catálogo que a acompanha, procuram transmitir. O desenho é o ponto de partida de todas as arquiteturas possíveis, o lugar onde a ideia ganha corpo e se liberta da abstração. 

A exposição do Traço à Cidade é, portanto, bem mais do que um retrato da Arquitectura contemporânea da região de Lisboa e Vale do Tejo. É a celebração do processo criativo, da partilha entre pares e do compromisso coletivo da classe para com a construção de um futuro mais informado e consciente da sociedade e do país. E é também, e sublinho, o início de uma nova etapa na preservação e valorização da memória arquitectónica da região que, desde sempre, foi um dos principais centros de experimentação, reflexão e produção arquitetónica do país.

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