Discurso de Pedro Novo no Prémio Carreira atribuido a Helena Roseta
Maio de 2026
Querida Helena, É uma noite de festa. E é uma noite curiosa: estamos em Óbidos, uma cidade muralhada que se atravessa a pé, à medida do corpo, e estamos, ao mesmo tempo, num lugar onde a arquitectura contemporânea portuguesa decidiu, há alguns anos, marcar presença. Talvez seja esse o sítio certo para falarmos de quem fez da escala humana o método de uma vida inteira. Há pessoas cuja vida profissional se mede pelas obras que deixam. E há outras, mais raras, cuja obra maior é a marca que deixam nas pessoas. Nas instituições. No modo como pensamos a cidade. No modo como entendemos a democracia. Hoje, em nome da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos, homenageamos uma dessas pessoas.
Homenageamos Helena Roseta.
Lisboa, Novembro de 1967.
Uma noite de cheias mata mais de quinhentas pessoas nos arredores da capital. Os mortos eram quase todos da periferia, barracas, bairros precários, gente que ninguém via até a água levar tudo.
Acensura tentou, durante dias, que não se soubesse. Foi um grupo de estudantes universitários que furou o silêncio e percorreu o terreno a contabilizar os mortos, umaum, até serem demasiados para esconder.
No meio desses estudantes estava uma rapariga de dezanove anos.
Pouco tempo depois, numa aula com o arquitecto Nuno Portas, foi-lhe pedido que dissesse porque tinha entrado para a Arquitectura. E ela respondeu, com uma frontalidade que ainda hoje pode ouvir-se: "Vim para a arquitectura para resolver o problema da habitação em Portugal."
Dezanove anos. Uma vida inteira ainda por viver. E já tinha a missão escolhida. Nas vésperas dos seus setenta e seis anos, perguntaram-lhe se tinha cumprido essa promessa. Ela respondeu com a mesma frontalidade, não tinha resolvido o problema. Mas tinha passado a vida a tentar. E esta noite, querida Helena, é também por causa dessa promessa por cumprir que estamos aqui.
Entre essa rapariga de dezanove anos e a Helena Roseta de hoje vão quase sessenta anos. Quase sessenta anos de uma coerência rara.
Em1973, secretária-geral do antigo Sindicato Nacional dos Arquitectos, levou ao III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, uma tese sobre habitação.No mesmo ano, foi detida pela PIDE. Tinha vinte e cinco anos, e já era inconveniente.
Dois anos depois, em 1975, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte. Tinha vinte e sete anos. E é ali, naquela mesa onde se escrevia o país que ainda hoje habitamos, que nasce o artigo 65.º, o direito à habitação.
Hoje lemo-lo como se sempre tivesse existido.
Mas só existe porque alguém o escreveu.
Porque alguém o defendeu.
Porque alguém acreditou que uma democracia não está cumprida enquanto houver quem não tenha um lugar para viver.
Em 1982, deputada da AD, renunciou ao mandato. Tinha subscrito uma amnistia pelos presos políticos do PRP-BR, então em greve de fome. O partido recuou. Ela não. Preferiu sair do Parlamento a votar contra a sua consciência.
A Europa percebeu o gesto antes do que o nosso país. No ano seguinte, o Conselho da Europa concedeu-lhe a Medalha Pro Mérito.
Foi também nessa década Presidente da Câmara Municipal de Cascais, uma das primeiríssimas mulheres a presidir um município em Portugal.
E em Cascais voltou a enfrentar uma cheia, a de 1983. Como se houvesse vidas que se organizam à volta das águas que arrastam os mais pobres. Foi Presidente da Ordem dos Arquitectos entre 2001 e 2007. Foram seis anos em que a Ordem deixou de olhar só para dentro e começou a olhar para a sociedade.
Depois veio Lisboa. A vereadora, a Presidente da Assembleia Municipal. E o BIP-ZIP, uma das mais sérias experiências de democracia participativa que este país conheceu, distinguida pelo Observatório Internacional da Democracia Participativa. E veio, em 2019, a Lei de Bases da Habitação.
Quarenta e três anos depois do artigo 65.º. Foi como se a rapariga de dezanove anos tivesse, finalmente, conseguido inscrever a sua promessa na lei. Depois ainda houve os Bairros Saudáveis, em plena pandemia.E há, agora, o livro: Habitação & Liberdade. O título é, em si mesmo, uma síntese.
Dá vertigem dizer tudo isto numa noite só.
Mas talvez o mais admirável de tudo nem esteja nesta enumeração. Esteja na pergunta que a percorreu sempre, e que continua a ser a mesma: O que faz, exactamente, um arquitecto? Helena Roseta nunca aceitou a resposta confortável, que um arquitecto é alguém que projecta edifícios. Insistiu, sessenta anos a fio, numa resposta mais difícil, que um arquitecto é alguém que pensa onde, e como, e com quem se vive. Desenhar cidades é desenhar possibilidades de vida. Oterritório pode incluir, ou pode excluir. A habitação não é mercadoria, é dignidade.
Num tempo em que se reduziu, demasiadas vezes, o arquitecto ao autor de objectos, a Helena lembrou-nos uma coisa simples e exigente, que a nossa profissão é uma responsabilidade social antes de ser qualquer outra coisa.
Há uma frase sua, dita há alguns anos, que circula muito entre nós. Perguntaram-lhe porque era política. Respondeu: "Sou política porque sou arquitecta." É uma frase pequena. E é uma lição inteira. Porque nessa frase está tudo aquilo que o nosso ofício pode ser, quando se entende a sério, a ideia de que quem pensa o espaço pensa, inevitavelmente, a vida em comum. Que quem desenha uma rua está, no fundo, a escolher uma forma de sociedade.
Que não há neutralidade possível para quem decide onde vai cada parede, cada porta, cada janela.
E depois há a Helena pessoa. Numa profissão historicamente dominada por homens, afirmou-se sem nunca pedir licença, e sobretudo sem nunca pedir desculpa. Não ocupou apenas lugares de liderança, transformou esses lugares enquanto neles estava. Em cinquenta anos, fez-nos a todos um pouco melhores. Aos que concordaram com ela, e aos que discordaram também. Porque obrigou todos, sempre, a pensar. Numtempo de cinismo, manteve convicções. Numtempo de ruído, manteve clareza. Numtempo de resignação, manteve esperança. E, talvez seja isto o mais importante de tudo, manteve a inquietação. A inquietação de quem, aos setenta e oito anos, continua a escrever, a falar, a discordar, a propor. Como se ainda fosse Novembro de 1967, e ainda houvesse mortos por contar nas margens da cidade.
Querida Helena, Esta noite, em Óbidos, no Dia Regional do Arquitecto, a Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos entrega-lhe o Prémio Carreira. Mas a verdade é que não estamos a premiar uma carreira. Estamos a agradecer uma vida.
Uma vida de coerência, num país que muitas vezes não sabe o que fazer com pessoas coerentes.
Uma vida de serviço público, num tempo em que a expressão "serviço público" anda em vias de extinção.
Uma vida a lembrar-nos, com paciência e com teimosia, que ser arquitecto pode ser, e talvez deva ser, uma forma profunda de cuidar dos outros.
Obrigado pela coragem.
Obrigado pela lucidez.
Obrigado pela frontalidade que, há sessenta anos, nunca conheceu trégua.
Obrigado por nos ter ensinado que a luta pela habitação é, no fundo, a luta pela liberdade.
E obrigado, sobretudo, por nunca ter desistido daquela promessa que fez aos dezanove anos.
Em nome de todos os arquitectos e arquitectas de Lisboa e Vale do Tejo, é uma honra e uma alegria entregar-lhe este Prémio Carreira.
Parabéns, querida Helena.

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