20/10/26

A SOMBRA DE UMA ÁRVORE NÃO SE ALUGA



Em 1842, por iniciativa de Costa Cabral, começou a construir-se em frente da Basílica da Estrela um Jardim pensado para dar ar e saúde a uma Lisboa que já então era “apertada”. Abriu ao público em 1852, obra dos mestres jardineiros Jean-Baptiste Bonnard e João Francisco, um jardim na tradição inglesa, de lagos e caminhos sinuosos, onde a Figueira da Austrália e o Dragoeiro rapidamente aprenderam a ser alfacinhas. Em 1882 acolheu a primeira creche do país, em 1936 recebeu o coreto que o arquitecto José Luís Monteiro desenhara em 1894 para a Avenida da Liberdade. Nasceu público e nasceu para todos e está hoje em processo de classificação como jardim histórico nacional.

Durante décadas, a poucos passos da entrada da Basílica, o “café amarelo” foi a sala de estar deste Jardim. Ali estudaram gerações de alunos das escolas das redondezas, ali os mais velhos jogaram às cartas com a solenidade de um conselho de Estado. Ali foi Lugar de tertúlias sem convite e de Biblioteca sem portas. Uma bica e uma mesa à sombra apenas pediram tempo, e o tempo sempre foi o único luxo que ali se consumiu!

Em Junho, o quiosque reabriu com outro nome e outra alma. Perdeu o amarelo do passado e agora serve brunchs, cocktails e cafés com espuma de matcha, a preços que fazem a triagem que ninguém ousa assumir. Os estudantes deixaram de vir e os mais velhos contam-se pelos dedos. As mesas enchem-se de quem está de passagem, com o telemóvel apontado ao prato. Ninguém foi expulso do Jardim, apenas fomos convidados a desistir!

O problema não é o concessionário, que faz o que dele se espera. O problema é quem concede. O quiosque é municipal, o jardim é municipal, e o modelo que ali se instalou só existe porque a Câmara Municipal de Lisboa o consentiu, primeiro por acção e depois por omissão. A própria Câmara reconheceu, a 24 de Setembro, que as obras decorreram sem controlo prévio municipal num jardim em vias de classificação, e foi noticiado que o pedido de legalização acabou liminarmente rejeitado pelos seus serviços. Quando se pediram explicações, invocou-se o abandono de outrora, como se a única alternativa ao desleixo fosse a exclusão.

O que está em causa ultrapassa a Estrela. Um jardim público é a sala de visitas de quem não tem sala, o lugar onde o estudante sem quarto sossegado e o viúvo sem conversa se sentam lado a lado sem que ninguém lhes traga a conta. É à sombra das árvores que a cidade ainda nos trata por iguais. Quando cada quiosque se converte em montra, os jardins deixam de ser nossos e tornam-se cenário onde somos tolerados. Lisboa já vendeu quase tudo, as praças e ruas aos tuc-tuc e trotinetas, as casas e os bairros à especulação. Os jardins são o que nos resta sem qualquer preço.

Caro Presidente, Eng. Carlos Moedas, deixo-lhe alguns desafios bem concretos. Se a concessão é anterior ao seu mandato, nada tem a proteger, publique na íntegra o contrato e os pareceres que o sustentam, incluindo o da Património Cultural, se é que existe. Se as obras são ilegais, como a Câmara admite, suspenda a concessão até que a legalidade esteja reposta, em vez de regularizar o facto consumado. Imponha em todas as concessões dos jardins municipais de Lisboa um preço justo para o café, para a água e para a pastelaria bem portuguesa, e mesas onde se possa ficar sem consumir, porque a sombra de uma árvore não se aluga. Congele qualquer nova concessão em jardins históricos até existir um regulamento discutido com a cidade. Venha ouvir os mais de mil e trezentos cidadãos que já assinaram a petição “Jardim da Estrela para Todos”.

A Figueira da Austrália e o Dragoeiro continuam a dar a mesma sombra a quem a procura, sem perguntar de onde vem nem quanto traz no bolso. Chegaram de longe e, tal como eu, aprenderam a ser alfacinhas, e a Câmara Municipal bem podia aprender com as árvores.

Se nada mudar, a história deste Jardim ficará escrita assim: Em 1852, Lisboa abriu a Estrela a todos. Em 2026, a Câmara, começou a fechá-la, ao ritmo dos cafés com espuma de matcha.

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