Helena Roseta respondeu-lhe nesta quinta-feira, em entrevista à RTP, com uma frase que merecia estar afixada em todos os Paços do Concelho, «Não queremos presidentes de câmara implacáveis». Chamou legítimos aos protestos e lembrou que dialogar com quem protesta é o mínimo que a democracia exige. Acusou ainda o Estado de faltar todos os dias ao dever constitucional de garantir um mercado que funcione. Arquitecta, antiga presidente da Ordem dos Arquitectos e uma das responsáveis pela Lei de Bases da Habitação, Roseta não fala de cor, e o seu diagnóstico é o que um arquitecto subscreve sem hesitar. O país não tem falta de casas, tem falta de casas que as famílias possam pagar com aquilo que ganham.
A tenda torna essa diferença visível. É o grau zero da habitação, a mais antiga das arquitecturas sem arquitectos, e quem a monta no Rossio não pede abrigo, mostra a distância entre o que ganha e o que a cidade lhe exige diariamente. Levámos quarenta anos a tirar as barracas da paisagem portuguesa, e seria um retrocesso civilizacional que a tenda lhe tomasse o lugar. No primeiro trimestre deste ano, segundo o INE, o preço mediano das casas vendidas no concelho de Lisboa chegou aos 5292 euros por metro quadrado, mais do dobro do valor nacional. E, no entanto, os Censos de 2021 contaram perto de 90 mil alojamentos vagos por outros motivos só na Área Metropolitana de Lisboa, fora do mercado, à espera de partilhas ou de obras que não chegam.
É aqui que entra a proposta mais interessante de Roseta, uma espécie de ASAE para a habitação, na linha do regulador para o sector que já antes defendera. Seria uma entidade capaz de fiscalizar o próprio Estado, do Governo às juntas, e o mercado paralelo de arrendamentos sem contrato nem impostos, que deixa inquilinos sem direitos, a pagar por casas sem condições. As juntas de freguesia funcionariam como observatório, por serem quem melhor conhece os prédios fechados e as pessoas que dormem na rua, ainda que hoje não tenham competências nenhumas em matéria de habitação. Uma nova entidade não constrói casas, é certo. Mas obriga a olhar para as que existem, e em Lisboa é sobretudo isso que falta.
Não é por acaso que foi Helena Roseta quem apresentou este ano, na Ordem dos Arquitectos, as Brigadas 65, que tomam o nome do artigo da Constituição que consagra o direito à habitação e recuperam a memória do SAAL. Começam agora o trabalho de campo neste território, e podem ser os olhos técnicos de que essa fiscalização precisa, pondo arquitectos a ver de perto o que as juntas já conhecem. Não resolverão sozinhas a crise, mas lembram que a profissão já esteve ao lado de quem precisava de casa.
Uma tenda não é uma casa. É uma pergunta feita em voz alta, no lugar mais visível da cidade, sobre quem ainda pode viver nela...
Revista Anteprojectos Out26


