Jornal CONSTRUIR nº 560
Julho 2026
HERAS NEGRAS DO DESENCANTAMENTO
Quem percorre hoje Lisboa dificilmente escapa às enormes letras monocromáticas, quase indecifráveis, que trepam por fachadas e empenas como uma hera negra, até lugares onde nenhuma mão deveria chegar. Chama-se "pixo" e não é graffiti. Não tem cor nem desenho, e muito menos mensagem legível, resumindo-se à assinatura de quem o pratica, tanto mais valiosa quanto mais alto e inacessível for o suporte. A sua raiz remonta às periferias de São Paulo dos anos 80 do século passado, onde jovens marginalizados, inspirados nas tipografias do heavy metal, inventaram uma caligrafia própria para reclamar o direito à cidade que lhes era negado. De lá chegou a Portugal, onde assinaturas “INSANOS” ou “PAMPAS” cobrem já prédios habitados do primeiro ao último piso, dos Olivais à Praça do Chile. Praticado de madrugada, com cordas e equipamento de escalada, fez da cidade um campo de prova em que o risco é a medida do prestígio e a fachada alheia, o pódio, alastrando hoje por toda a área metropolitana.
Os que o praticam não escondem as motivações, falando aos meios de comunicação social de acções de protesto ou de fama, mas sobretudo do desejo de "eternidade" e da convicção de que a cidade deve ser "uma galeria" onde qualquer um pode "expor". Compreendê-las é necessário, legitimá-las seria um erro. O direito à cidade, tal como Lefebvre o formulou, é um direito colectivo, de todos a habitar e a transformar democraticamente o espaço urbano. A apropriação do campo visual comum por uma assinatura privada é precisamente o seu contrário, a privatização do que pertence a todos. A cidade não é uma galeria de livre acesso, é a casa comum, feita de casas concretas e de moradores concretos que não escolheram ser suporte da notoriedade alheia. Invocar a exclusão social para justificar a agressão ao património de vizinhos com as mesmas fragilidades económicas é uma contradição evidente.
As consequências estão à vista. A degradação é imediata e cumulativa, porque um edifício riscado sinaliza abandono e convoca mais riscos, num efeito conhecido de erosão do cuidado colectivo. Sou arquitecto e sei o que custa erguer uma fachada, o tempo que vai do primeiro esquisso à última demão, as mãos que a desenham e as mãos que a levantam. Vê-la amanhecer riscada dói, porque não é tinta sobre reboco, é desprezo sobre trabalho. Cada fachada é ao mesmo tempo propriedade privada e paisagem comum, e feri-la é ferir ambas. São os proprietários, tantas vezes condomínios de rendimentos modestos, quem suporta o custo de remoções difíceis e caríssimas, feitas em altura e sobre rebocos muitas vezes irrecuperáveis. Recorde-se a revolta dos moradores dos Olivais, cujos prédios de dez pisos amanheceram riscados da base ao topo. A lei prevê coimas elevadas, mas a impunidade prática é a regra, com autores que se exibem impunemente nas redes sociais e raramente respondem pelos danos. A tudo isto soma-se a desvalorização do edificado, o desgaste da imagem de uma cidade que vive também do seu património e, acima de tudo, o sentimento de impotência de quem habita atrás dessas paredes.
O que fazer perante um fenómeno que assume proporções descontroladas? Primeiro, retirar-lhe o troféu. O “pixador” procura permanência, e a remoção rápida e sistemática, apoiada por programas municipais que auxiliem os condomínios na limpeza e na protecção das fachadas, é a mais eficaz das dissuasões. As linhas de apoio à conservação do edificado deviam, aliás, integrar expressamente a remoção destas inscrições. Segundo, responsabilizar quem risca, através da identificação dos autores e da sua responsabilização civil pelos danos, admitindo a conversão das coimas em trabalho comunitário de reparação do espaço público, pedagogicamente mais útil do que multas muitas vezes incobráveis. Terceiro, prevenir, cartografando o fenómeno à escala metropolitana, levando o tema à escola e, principalmente, alargando os canais legítimos de expressão urbana, como a Galeria de Arte Urbana já demonstrou ser possível. Por fim, importa responder à raiz social do problema, porque o verdadeiro direito à cidade se conquista com habitação digna e com espaço público qualificado.
Defender a arquitectura e quem dela cuida não é uma causa conservadora nem um capricho estético, é a defesa do bem comum. Os “pixadores” afirmam procurar a "eternidade", mas a única eternidade que as cidades concedem é a de quem as ergue e cuida, deixando-as melhores às futuras gerações. Quem verdadeiramente ama uma cidade não precisa de a assinar. O direito à cidade existe e deve ser reclamado, escrevendo-se todos os dias com políticas públicas e com cidadania, pelas mãos que erguem, nunca pelas que riscam. São essas mãos que hão-de arrancar estas heras negras e devolver a cidade ao seu encanto.

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