PREFÁCIO
Pancho, na vertigem do limite. cem anos de virtudes.
Celebrar o centenário de nascimento de Pancho Guedes é muito mais do que assinalar uma data. É reconhecer a singularidade de um homem que marcou a Arquitetura nacional e internacional pela sua intensidade e brilhantismo raros, de certo modo, indomável. Este livro que agora se publica, promovido pela Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos, no cumprimento das suas competências estatutárias de promoção, divulgação e valorização da Arquitetura, integra-se nas comemorações dos arquitetos nascidos em 1925, essa geração extraordinária que deixou marcas profundas na cultura arquitetónica e na cultura em geral, do nosso país. Entre muitos ilustres arquitectos dessa geração de ouro, Pancho Guedes ocupa um lugar de honra, pela coerência da sua obra, pela ousadia do seu pensamento e amplitude da sua influência.
A escolha de Pancho Guedes para assinalar este ciclo editorial é uma afirmação simbólica de que a Arquitetura é, antes de tudo, humanidade, e que um país que se deseja evoluído, culto e justo deve cuidar da memória das referências maiores, para que outros, numa lógica natural de renovação, lhes sigam o exemplo. Pancho representa um espírito livre e generoso da disciplina trilhado por laivos de humor e tropicalidade. Representa um ímpeto de quem não reconhece limites, de quem vê na Arquitetura um campo fértil de experimentação, poesia e reinvenção. E representa, também, o compromisso de muitos arquitetos que, como ele, fizeram do desenho e da construção um modo de estar no mundo, ao serviço dos outros.
Este livro, coordenado por Miguel Santiago, figura indispensável nos estudos sobre Pancho Guedes, é sobretudo um tremendo acto de generosidade. A sua visão estruturante permitiu gerar nesta obra uma polifonia entre autores, perante um lugar comum da vida e obra de Pancho. O Miguel merece aqui um elogio especial, pelo empenho e rigor da investigação, pela sensibilidade com que aproxima relatos tão distintos, pela capacidade de convocar memórias, arquivos e testemunhos, e pela coragem de manter viva a discussão em torno de um autor complexo que nunca se deixou domesticar. As visões que compõem este volume constroem uma constelação, onde cada autor ilumina um ângulo diferente de Pancho, e é dessa multiplicidade que se revela a dimensão completa, ou talvez, sempre incompleta do homem arquitecto e do seu mundo. Um universo que Mário Sua Kay aclara na intimidade da “primeira casa” de seus pais, lembrando que a obra de Pancho nasce muitas vezes de relações humanas profundas, de amizades e afetos que moldam ideias. Revela também outra faceta do homem Pancho, um activismo político camuflado na generosidade, pro bono, do projecto na Suazilândia.
João Sousa Morais situa o arquiteto no contexto historiográfico, lembrando como a sua leitura tardia em Portugal contrasta com o entusiasmo internacional que o acolheu desde cedo, o arquitecto “mais negro de Africa” ou o “Niemeyer africano”, tornando-o intemporal! A “cidade doente” retratada por Lisandra Franco de Mendonça, sublinha a dimensão política e urbana da sua prática, revelando a coragem de um arquiteto que nunca se furtou às desigualdades do território e à dignidade das populações. Ana Vaz Milheiro leva-nos à Escola de Waterford, expondo a proximidade de Pancho com o processo construtivo e com o método educativo, evidenciando o seu olhar atento e profundamente humanista. Troufa Real recupera um documento íntimo que nos devolve um Pancho espontâneo, livre, cheio de humor e curiosidade. Pedro Gadanho, no seu texto sobre a modernidade alternativa, sublinha o brilho de um autor que rompeu com a linearidade da história e propôs novas conexões, novas genealogias, novos mundos possíveis. Pedro Ressano Garcia escreve com proximidade e emoção, devolvendo-nos o Pancho professor, amigo e cúmplice, capaz de provocar, inspirar e entusiasmar todos quantos se cruzavam com ele. Jorge Figueira reconstrói a teia das primeiras publicações internacionais, revelando como a obra de Pancho se projetou no mundo com naturalidade, quase como se procurasse o lugar onde melhor poderia ser compreendida. E Jorge Cruz Pinto, no discurso do Doutoramento Honoris Causa, oferece a síntese perfeita do reconhecimento institucional que Pancho sempre mereceu.
Esta diversidade de testemunhos não é apenas riqueza. É coerência. Porque Pancho Guedes não cabe num só género, num só rótulo, num só modo de pensar. A sua obra, espalhada por vários continentes, linguagens e disciplinas, é o testemunho de uma vida pautada pela intensidade e a entrega. Como bem escreve Miguel Santiago noutro dos seus textos, Pancho projetava como quem respira — de modo simultaneamente intuitivo, rigoroso e profundamente individual. E como recorda Jorge Figueira, Pancho continuou a desenhar incessantemente, reinventando as suas próprias obras e demonstrando que o verdadeiro criador nunca repousa.
Ao promover esta edição, a Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos reafirma também a sua história. Uma história que, desde a origem da Ordem dos Arquitectos, assumiu a responsabilidade e o compromisso de documentar, divulgar e preservar a memória dos seus membros mais notáveis. A publicação deste livro inscreve-se nessa missão histórica de reconhecer aqueles que ampliaram a nossa disciplina e que elevaram a Arquitetura portuguesa também no panorama internacional. Pancho Guedes é, por tudo isto, uma figura irrenunciável. A sua obra honranos enquanto comunidade profissional e desafia-nos enquanto criadores.
Enquanto Presidente da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos, é para mim um privilégio apresentar esta obra. Que este livro inspire novas leituras, novas investigações e inquietações. Que traga Pancho Guedes às conversas dos ateliers e da academia, que possa voltar a ser revisitado e verdadeiramente entendido. Na celebração do centenário de Pancho, deixamos aqui o tributo merecido. Não apenas ao arquitecto, mas ao homem.

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