14/09/26

Doze contra um




Em 1957, Sidney Lumet realizou Doze Homens em Fúria. É uma obra extraordinária, à qual tento revisitar sempre que posso! Doze jurados fecham-se numa sala de Nova Iorque para decidir a sorte de um rapaz onde todos os indícios indicam que só ele poderá ser o alegado homicida. Está calor. A ventoinha não trabalha. Muitos deles com compromissos lá fora. A grande maioria sem vontade de ali estar. À primeira votação, onze mãos sobem de um lado e uma mão fica sozinha do outro lado da mesa.

Costuma contar-se esta história como a do homem que resistiu, e é isso, mas não é só isso. O que se passa naquela sala é também uma questão de pressa e negligência. Nenhum daqueles homens é mal intencionado. Têm calor, pouco tempo para se debruçar sobre o assunto, alguns com bilhetes para o jogo no bolso, e sobretudo têm a certeza tranquila de que aquilo que foi exposto em audiência, é claro e óbvio! O adversário do filme não é a maioria. São as convicções com a pressa do relógio na parede...

Quem já se sentou a uma mesa com muitos lugares reconhece aquela sala. Uma decisão tomada por quase todos é, quase sempre, uma boa notícia, porque quer dizer que pessoas diferentes olharam para a mesma coisa e viram o mesmo. Mas a unanimidade tem duas faces e vistas de fora, são iguais. Pode ser que o assunto estivesse claro. Pode ser que ninguém tenha olhado. Depois escreve-se a acta, e a acta trata as duas com a mesma cortesia, porque a acta guarda o resultado e não guarda o olhar.

Vale a pena pensar em quem levanta a mão sozinho. O drama dura horas. Não é um instante de bravura, é uma tarde inteira, onde a razão trava a ida para casa de 12 pessoas. A pressão que se exerce sobre essa pessoa não é hostil, é pior do que isso, é razoável. Pedem-lhe bom senso e perguntam-lhe se vale a pena. Lembram-lhe que a decisão sai na mesma. E a certa altura dá-se a inversão silenciosa que existe em todas as salas com pressa, aquela em que quem levanta o braço para perguntar deixa de estar a fazer o seu trabalho e passa a estar a atrasar o dos outros. Ficar depois disso exige uma determinação que não se parece com heroísmo nenhum, porque é feita de pequenas recusas repetidas, uma atrás da outra, até ao fim da tarde.

E há o trabalho, que é a parte que ninguém vê e a única que interessa. Aquele jurado não convence a sala por falar melhor do que os outros. Convence porque foi a uma loja do bairro comprar uma navalha igual à do processo e porque pediu a planta da casa do homem que dizia ter ouvido. Convence, sobretudo, porque se levantou da cadeira para cronometrar, ali no chão, o tempo que um velho leva a atravessar um corredor. Chegou com dúvidas concretas em vez de chegar com um sentimento. É isso que distingue a convicção da teimosia, e é por isso que uma dúvida trabalhada vale mais do que onze certezas que ninguém foi conferir.
Quem vota contra fica ainda com uma obrigação que os outros não têm. A maioria pode limitar-se a votar. Quem discorda tem de se explicar por escrito, com datas e com números, num papel que qualquer pessoa possa conferir daqui a dez anos. É um esforço desproporcionado e é bom que o seja, porque é ele que separa a discordância fundamentada do mau perder. Quem levanta a mão sozinho e não escreve nada fez um gesto. Quem escreve deixou um documento.

No filme, a dúvida de um vai contagiando a sala e no fim tudo se inverte. Fora do filme quase nunca se inverte. E mesmo assim vale a pena, porque um lugar que guarda as suas dúvidas por escrito pode, muitos anos depois, encontrar a curva onde se enganou. Um lugar que só guarda resultados repete-se, porque o erro só é evitável para quem consegue reconstituir como é que lá chegou da primeira vez.

Se a sala muda, o mérito não é só de quem duvidou. É também dos outros onze, que aceitaram olhar segunda vez para aquilo que julgavam já ter visto, e que disseram em voz alta, diante uns dos outros, que tinham votado depressa de mais. Uma dúvida sozinha, por mais bem fundamentada que seja, não chega a lado nenhum numa sala que não esteja disposta a recuar. Essa disponibilidade não vem em estatuto nenhum, nem podia vir. 

Ou está na sala, ou não está.


 

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