13/09/22

Hugo Landeiro Domingues

 




Hugo Landeiro Domingues, fundanense de gema com raízes à Aldeia das Aranhas, terra de seus pais. Em menino brincou e construiu a sua personalidade pelas ruas do Fundão, junto de outros “artistas” que conheceu no seu percurso pelo agrupamento de artes da Escola Secundária do Fundão. É talvez nesta época que Hugo Domingues aguça a sua paixão pelas terras da Beira e em particular pela Serra da Gardunha.

Atingida a maioridade ingressou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Design de Comunicação e onde regressaria, anos mais tarde, para frequentar o mestrado em Design de Comunicação e Novos Media. Era também pós-graduado em Comunicação e Imagem pelo IADE e em Marketing de Eventos e Produtos Turísticos pela Universidade da Beira Interior.

Foi também professor convidado na Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, no curso de Design de Comunicação e Produção Audiovisual, onde era conhecido pela exigência e rigor, pelo questionamento e entusiasmo que tentava transmitir às gerações mais novas, nas várias disciplinas que leccionava.

Enquanto designer de comunicação, iniciou o seu percurso pela capital, assumindo a direcção criativa de várias agências de design de comunicação e publicidade onde teve oportunidade de trabalhar para clientes como a EDP, FNAC, GALP, PT COMUNICAÇÕES, Agência LUSA, Tranquilidade ou Singer, entre muitas outras multinacionais.

Com espírito empreendedor e paixão pelo seu trabalho, sempre acreditou que conseguiria responder aos desafios colocados, independentemente da dimensão dos clientes. Ao fundar a sua primeira empresa, dividia o tempo entre o Litoral e o Interior, colocando o design ao serviço do desenvolvimento e da criação de valor territorial. Contribuiu para a atual identidade territorial da cidade, fazendo nascer reconhecidas marcas como a Cereja do Fundão, o Encontro do Vento ou o aclamado Festival dos Caminhos da Transumância, mais conhecido por “os Chocalhos”.

Realizou ainda consultoria em projectos de inovação, marketing, branding, design e identidade territorial e implementou produtos locais de onde se destacam em particular marcas como a “iNature” de promoção de turismo sustentável em áreas classificadas, a “Grande Rota da Transumância” e as “Rotas da Gardunha”.

A sua paixão pela tipografia permitiu-lhe criar diversas fontes tipográficas, que podem ser encontradas nas mais diversas publicações ou identidades, como é o caso da Casa da Cereja ou da renovação da identidade do Jornal do Fundão. Foi criador, coordenador e editor de diversas publicações locais e regionais, como a revista Solstício e o Almanaque Ocaia de matriz regional e que versam sobretudo as temáticas da natureza e da região da Beira interior. Em parceria com outros agentes locais, foi também ele criador, dinamizador e colaborador em eventos culturais como o TeatroAgosto ou o Solstício - Festival da Natureza.

Parceria, foi um termo que sempre fez parte do seu léxico e assim se entende que tenha sido membro activo de diversas associações de dinamização e desenvolvimento territorial, cultural e turístico de Beira Interior.

O seu portfólio é infindável e quase impossível de enumerar.

Nenhum obstáculo da sua vida o fez parar. Com a generosidade que lhe era característica, partilhava ideias com todos e plantava criatividade em vários pontinhos da Beira Interior. Com irreverência e astúcia, arriscava. Era perfeccionista e todos os seus trabalhos revelam-se num encontro entre um conhecedor exímio da região e um designer genial.

O Hugo nunca disse não a mais um desafio! Homem de pensamento ousado para os seus pares e repleto de uma identidade universal, com um profundo conhecimento das coordenadas identitárias do interior.

O Hugo merece ser recordado pela sua vida de partilha, pelo legado que deixou à cidade, às suas gentes e sobretudo a este território que tanto amou. 

08/07/22

A "barreira Invisível" - Notas sobre um dispositivio cénico

 






As questões em torno do “limite” sempre me intrigaram aquando da análise das relações humanas no quotidiano urbano. Perante o desafio de reflectir sobre uma ou a “Avenida” e seu contexto, em particular na polis do Fundão, duas questões surgiram de modo vincado: a velha máxima do arquitecto Nuno Garcia – “Fundão, a cidade de risco ao meio” e qual o entendimento sobre a definição de um eixo viário que ao longo dos tempos se tornara numa extensa Ágora dos tempos modernos. É na base desta mutação de certa forma tentacular entre dois conceitos avenida/ágora que a expansão da democratização do espaço, em particular neste lugar do Fundão, não ocorre tradicionalmente, apenas e só nos limites de uma Praça. Desde a década de 60 do século passado que este eixo é o motor de transformação, onde o espaço-tempo se reflecte no exercício da vida quotidiana sobre “layers” muito bem explanados nas “Velocidades Contemporâneas” de Alexandre Melo.  

“Cercar uma horta ou um jardim é comum; não, cercar um império.” Diria Jorge Luís Borges aquando dos relatos de sinólogos sobre a decisão singular de Qin Shi Huang de erigir a grande muralha da China. A “barreira invisível” é um fenómeno que o inconsciente produz segundo o nosso background social e que Edward T Hall constrói no conceito de  “dimensão oculta”. A dimensão oculta, no seu entendimento é definida pelo espaço que “trabalha “ num constant exerccio de aproximação, de afastamento e que sobretudo possibilidta os nossos afectos e relações humanas sem que conscientemente entendamos essas evidências. Para Edward T Hall que categoriza determinadas reacções particulares entre pessoas  e o espaço, enquanto dimensões ocultas inconscientes. Nessa medida baliza o conceito em quarto dimensões de partilha do espaço: íntima, pessoal, social e pública.

Perante os layers das “velocidades contemporâneas”  de Alexandre Melo e a as relações sociais da “dimensão culta” de Edward T Hall reconheço que uma fotografia do arquivo do Jornal do Fundão sobre um dos passeios da Avenida da Liberdade na cidade do Fundão agregava com rigor as velocidades e relações que ocorrem na longa ágora da cidade.


Os layers são aparentemente visíveis no reconhecimento das diferente velocidades de apropriação do eixo viário pelos automóveis e do passeio pelos transeuntes. A problemática estava em cima da mesa e a formula de como compactar todos estes cenários num contexto plano de uma só dimensão, era o desafio. O eixo palco-publico é virtuoso mas limitador, contudo a premissa era desafiadora.

Assim arrancámos para o desenho de uma estrutura que servisse de barreira. Um limite que construísse a fronteira entre o social e o privado mas que potenciasse outras dimensões. Que permitisse viajar tal como Lewis Carroll  lançou Alice para “o outro lado do espelho”.

De um modo minimalista foi criada uma estrutura de madeira constituída por diferentes módulos de se acoplam de modo orgânico mas com ordem certa. Todos os módulos são diferenciados e constituídos de uma segunda estrutura no seu interior que permite a colocação de adereços de figurismo dos actores. O volume dos adereços provoca consequentemente uma “espessura”, uma densidade, que se transforma numa membrana atravessável e não reconhecida pelo público. É este processo de atravessamento que permite a definição das viagens tempo e espaço. A personagem poderá navegar temporalmente entre anos ou décadas para o mesmo espaço ou para outro local qualquer com intimidade diferenciada do anterior. Por outro lado a encenação acabou por descobrir a potencialidade do processo introduzindo a mutação dos actores em diferentes personagens aquando dos atravessamentos. Perante este exercício, a lógica estava ganha, contudo a “Avenida” tinha muitos layers. e para os materializar a estrutura “fonteira” tinha de poder rodar, recuar e avançar por forma a estrangular ou libertar a dimensão entre actores e publico.  

A Amália, como carinhosamente o encenador a denominou, tornou-se também num personagem com riqueza simbólica e profundamente estruturante no contexto da peça. Mais tarde percebi que o nome do dispositivo cénico não era um acaso. Era também uma dimensão oculta, um fado cantado de uma história de uma cidade... das cidades!











01/07/22

Norte Júnior, do Rossio ao Chiado





 No panorama da arquitectura lisboeta do início do século XX destacam-se os nomes de vários arquitectos que assumem um papel de relevo a nível nacional, ditando os caminhos da evolução e renovação constante de modelos ornamentais, de modos de edificação e de sistemas construtivos. Uma destas figuras de relevo é Manuel Joaquim Norte Júnior, arquitecto que inicia a sua actividade nos primeiros anos de Novecentos e que, sendo desde cedo galardoado em diversas edições do Prémio Valmor, se torna um dos principais arquitectos de Lisboa na segunda e na terceira décadas do século.

Norte Júnior, como é designado abreviadamente desde então, nasce na véspera de Natal de 1878 em Lisboa, sendo filho de um artífice do mundo da construção, designadamente um carpinteiro de origem algarvia, situação comum a muitos outros arquitectos do seu tempo. Após completar o seu curso de arquitetura em Lisboa, prossegue os seus estudos enquanto pensionista do Estado em Paris. Após o seu regresso a Lisboa, a sua primeira obra de destaque é a Casa-atelier do reputado pintor José Malhoa, situada numa esquina da Avenida 5 de Outubro, a qual projecta em 1904 e pela qual recebe o Prémio Valmor do ano seguinte. Entre as suas obras mais conhecidas no domínio residencial urbano estão o Palacete de José Maria Marques situado na Avenida Fontes Pereira de Melo, conhecido por albergar a sede do Metropolitano de Lisboa, obra que projecta em 1911 e pela qual recebe o Prémio Valmor de 1914, bem como os grandes e inovadores edifícios mandados erguer pelo Visconde de Salreu na Avenida da Liberdade entre os números 206 e 208, igualmente com frente para a Rua Rodrigues Sampaio, projectados a partir de 1912 e galardoados com o Prémio Valmor de 1915, além do edifício da esquina da Rua Braamcamp com a Rua Castilho projectado em 1921. A estes podemos ainda somar a sede de “A Voz do Operário”, projectada em 1912 para um local de destaque junto da Igreja de S. Vicente de Fora, ou os Armazéns Abel Pereira da Fonseca, projectados em 1917 para o Poço do Bispo. Para além dos limites da capital destacam-se vários projectos que realiza para a Costa do Sol e, sobretudo, o Palace Hotel das termas da Curia e o edifício da Sociedade Amor-Pátria na cidade açoreana da Horta.

Sendo no princípio do século XX, a zona da Baixa Pombalina e do Chiado, o território de maior destaque urbano em Lisboa no domínio comercial, também ali Norte Júnior deixará a sua marca em diversas obras de referência e de transformação urbana, assumindo frequentemente posições de grande destaque e visibilidade nas principais artérias e espaços, tais como a Rua Garrett, a Rua do Carmo, o Rossio e a Rua Augusta.

A primeira obra de grande destaque projectada por Norte Júnior neste território de matriz pombalina corresponde ao Café Chave d'Ouro, encomendado por Joaquim Albuquerque em 1915 para a frente poente do Rossio. A intervenção realizada por Norte Júnior, durou apenas até meados da década de 1930, quando uma remodelação e ampliação do Café Chave d’Ouro ditou o total desaparecimento dos elementos datados de 1915-1916. O projecto era caracterizado sobretudo pela sua representação exterior, de grande exuberância formal. A fachada sóbria setecentista é rasgada no piso térreo e primeiro andar por um vistoso frontispício ricamente ornado escultoricamente. Este frontispício assume uma composição assimétrica, com um tramo de vão único do seu lado esquerdo, relativo a uma tabacaria, e um tramo mais largo do seu lado direito, correspondente à entrada no café. É este ultimo que assume maior destaque, com uma composição tripartida no piso térreo, onde a porta em posição central surge flanqueada por duas colunas estilizadas em mármore, e um janelão único no piso superior, sendo todos os vãos caracterizados pelos seus remates superiores em arco abatido. Sobre a porta central, interrompendo a cornija curva com volutas, emerge uma figura humana alada segurando uma lanterna sobre uma faixa com a designação do café. Lateralmente, rematando as ombreiras do vão tripartido, surgem dois mascarões e, superiormente a estes, duas luminárias. Rematando superiormente toda a composição é disposto um medalhão com a data de 1916. Apesar da curta existência desta obra, alguns dos seus elementos serão retomados em projectos seguintes de Norte Júnior para este território.

O Edifício do Crédito Predial Português, erguido em plena Rua Augusta, constitui a maior obra de Norte Júnior neste território. Por este motivo, este edifício destaca-se das dominantes edificações de origem pombalina pela sua fachada marcadamente ecléctica com elementos clássicos estilizados de um modo geométrico, indiciando já em 1919 as vindouras influências Art Déco observáveis com maior clareza num desenho proposto para os portões térreos, que não chega a ser executado. Ressurgem aqui as colunas como elemento marcante da entrada principal, feita agora por três altas portas localizadas num tramo central, mais largo, flanqueado por outros dois tramos mais estreitos, separados daquele por duas altas pilastras estilizadas. Os interiores, inteiramente alterados na década de 1970, eram um reflexo da tripartição do alçado principal, sendo que os postais de entrada permitiam aceder a um amplo átrio de múltiplo pé-direito, num espaço de planta quadrangular com os pilares de gosto geometrizante nos ângulos contrastando com o pavimento em mármore com desenho clássico ainda hoje existente.

A mais conhecida obra realizada por Norte Júnior na zona do Chiado corresponde à remodelação e ampliação do espaço ocupado pela firma Teles e C.ª, o celebrado Café "A Brasileira", realizada em 1922. Fora em 1905 que se instalara aqui o estabelecimento de venda de cafés da firma Teles e C.ª, num espaço anteriormente ocupado por uma camisaria. Com o sucesso do negócio e a necessidade de introdução de novas valências, o espaço passa a funcionar igualmente como café em 1908. Catorze anos volvidos, Norte Júnior é chamado para projectar as obras de ampliação do espaço incluindo a sua ostentosa ornamentação interior. O edifício residencial de matriz pombalina apresentava já nos primeiros anos de Novecentos o seu piso térreo transformado pela introdução de devantures em ferro fundido, uma das quais correspondente ao espaço comercial da firma Teles e C.ª. Esta devanture, de três vãos, é agora substituída por um frontispício de elaborado desenho ecléctico na qual se repete a estrutura inicial tripartida em ferro fundido, agora com uma nova ornamentação e enquadrada por um arco de volta inteira e por duas esculturas situadas nos extremos laterais, projectando-se sobre o passeio apelando à entrada no interior do café, numa conjugação da arquitectura e da escultura ornamental que suplanta o modelo já expresso anos antes no Café Chave d’Ouro. O espaço interno, uma sala estreita e comprida, é marcado pelo seu pavimento em mármore preto e branco, pelas duplas pilastras de mármore preto e capitéis dourados ritmando as paredes laterais, pelos seus lambrins de madeira, pelos seus espelhos e pelos seus estuques, acrescentando-se a estes a elaborada parede de fundo com frontões enquadrando um relógio central. O balcão do café ocupa o lado à direita, transpondo para a planta do espaço comercial a tripartição da fachada. O café será o epicentro de um importante círculo artístico e cultural da capital, sendo por este motivo que logo entre 1922 e 1923 vários dos artistas que o frequentam realizam um conjunto de pinturas em tela, dentro das correntes artísticas mais vanguardistas, sendo aquelas expostas nas paredes do café. Entre os seus autores estão Jorge Barradas, Eduardo Viana, Almada Negreiros e Stuart Carvalhais. As pinturas originais são vendidas em 1969, mas em 1971 outras telas de artistas contemporâneos, como Carlos Calvet, Eduardo Nery e Nikias Skapinakis, vêm ocupar o espaço das anteriores. O agora celebrado Café "A Brasileira" acaba por se tornar num dos cafés mais concorridos de Lisboa também pela sua relevância enquanto espaço de comunhão e participação da comunidade intelectual e artística da cidade. Escritores e artistas de renome como Almada Negreiros ou Fernando Pessoa encontraram ali um lugar de debate e inspiração para gerações futuras. De relevar que os actuais proprietários ainda hoje promovem esta singularidade permitindo o contacto do visitante com objectos pessoais de Fernando Pessoa dignamente ali expostos.

A assiduidade de Fernando Pessoa motivou a inauguração, nos anos 1980, da estátua em bronze da autoria de Lagoa Henriques, que representa o escritor sentado à mesa na esplanada do café. Com toda a importância que teve na vida cultural do país, mantém hoje intacta a sua identidade, quer pela especificidade da sua decoração, quer pela simbologia que representa por se encontrar ligada a círculos de intelectuais.

Em 1925 Norte Júnior volta a conceber um projecto de relevo para a zona do Chiado, desta vez para a Rua do Carmo, designadamente o estabelecimento comercial da Joalharia do Carmo, detido então por Raul Pereira e adquirido posteriormente pelo ourives portuense Alfredo Pinto da Cunha. Este espaço ocupa os espaços inferiores da chamada "muralha do Carmo", um alto muro de suporte das estruturas do antigo convento arruinado pelo terramoto de 1755. A muralha fora nobilitada e reconstruída em 1911-1912 segundo um projecto da autoria do arquitecto Leonel Gaia que passou pela introdução de arcos e de pilastras amplamente espaçadas. Os espaços térreos de uso comercial são ocupados em 1925 pela Luvaria Ulisses, a sul, seguindo-se a Joalharia do Carmo. É esta última que é projectada por Norte Júnior, ocupando o espaço correspondente a um arco abatido cujo vão é tratado de forma semelhante ao do frontispício de "A Brasileira", com uma ornamentação ecléctica em ferro fundido. O pequeno espaço interior é caracterizado por um primeiro compartimento de planta rectangular ao qual se sucede um outro, disposto por expansão do canto esquerdo do primeiro, de planta arredondada, onde se inclui uma escadaria de acesso à sobre-loja. Por oposição aos elementos de ferro da fachada, no interior a ornamentação assume uma clara influência Art Déco presente em lambrins, vitrinas e no próprio guarda-corpos da escadaria. Apesar dos seus cerca de 100 anos de existência, o espaço comercial mantém a sua actividade de joalharia, mas agora em exclusivo sobre o trabalho minucioso do ouro na arte da filigrana, em sintonia com os preceitos de rigor introduzidos no desenho da concepção da fachada.

No ano seguinte Norte Júnior realiza uma nova intervenção de relevo no contexto dos edifícios de matriz pombalina, desta vez retornando à Rua Garrett. No edifício da esquina defronte de "A Brasileira" estava instalado desde 188 um estabelecimento comercial fundado pelos irmãos António e Ramiro Leão. Em 1926 um incêndio destrói parcialmente o edifício e este estabelecimento comercial, conduzindo à necessidade de ali realizar uma profunda renovação. Neste contexto, a intervenção de Norte Júnior passa simultaneamente pelo interior da loja bem como pela modernização das fachadas. No primeiro caso, destaca-se a introdução de vários elementos de destaque. Um deles é uma das duas escadarias, a qual apresenta pinturas murais concebidas pelo pintor João Vaz (1859-1931) representando o Palácio de Queluz, a Boca do Inferno, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Basílica da Estrela, juntando-se a estas um vitral com motivos vegetalistas e animais. Outros são o emblemático ascensor que, tal como os restantes espaços do interior do estabelecimento, é ornado numa estilização Luís XVI, enquanto que nos tectos surgem três pinturas a óleo elaboradas por alunos da escola Afonso Domingues com base em desenhos de João Vaz. No exterior a intervenção de Norte Júnior destaca-se sobretudo pela introdução de um torreão em balanço sobre as fachadas no próprio cunhal, atribuindo-lhe um maior destaque urbano ao torná-lo uma charneira entre a Praça Luís de Camões e o eixo comercial do Chiado.

Em 1929 Norte Júnior realiza uma nova intervenção para o quarteirão do Café Chave d’Ouro, elaborando o projecto para a renovação das instalações do centenário Café Nicola, o qual fora adquirido igualmente por Joaquim Albuquerque. Esta nova intervenção vem em linha com os pressupostos já observados nas fachadas dos cafés Chave d’Ouro e de "A Brasileira", bem como da Joalharia do Carmo, com a tripartição da fachada, o recurso a elementos escultóricos de relevo e a aplicação de luminárias lateralmente, assinalando exteriormente o café. Os elementos verticais que estabelecem a tripartição do grande vão são novamente constituídos por duas colunas em mármore, à imagem do café projectado por Norte Júnior para o mesmo quarteirão em 1915. Estas colunas, que aqui assumem uma clássica ornamentação de ordem jónica, suportam agora uma verga curva rematada lateralmente por exuberantes volutas, as quais enquadram a designação do café. O projecto de Norte Júnior terá igualmente abrangido o mobiliário e utensílios utilizados no interior. No entanto, desta intervenção resta hoje apenas o frontispício de desenho ecléctico, uma vez que o espaço interior foi somente seis anos depois alterado profundamente seguindo um projecto do arquitecto Raul Tojal, o qual ali empregou uma ornamentação de um gosto Art Déco tardio que certamente difere da inicialmente proposta por Norte Júnior.

Nas décadas seguintes Norte Júnior realizará novos projectos para o território lisboeta da Baixa e do Chiado, como é o caso da remodelação do já desaparecido estabelecimento comercial Américo Lima na Rua Augusta e de um edifício na mesma artéria, entre outros. No entanto, as obras realizadas na década de 1920 ainda existentes são aquelas que assumiram maior destaque urbano e aquelas que revelaram um maior contributo para a modernização arquitectónica do núcleo comercial da capital, mantendo-se como símbolos vivos da dinâmica cultural e artística ali dominante durante várias décadas do século XX, nomeadamente o Café "A Brasileira" e a Joalharia do Carmo, duas obras ainda hoje preservadas na sua integralidade.


Texto em co-autoria com José Pedro Tenreiro
Jornal Anteprojectors nº332
Maio 2022

30/04/20

Ordem em Transição


 

Em Setembro do ano passado penso ter sido assertivo quando escrevi que a aprovação do Regulamento de Organização e Funcionamento das Estruturas Regionais e Locais da Ordem dos Arquitectos (ROFERLOA) constituir-se-ia na maior transformação orgânica e funcional na Ordem dos Arquitectos desde que a mesma em 1998, deixou de ser Associação dos Arquitectos Portugueses! As transformações assumidas, numa oportunidade conjuntural e por maioria relativa em plenário de Delegados da Ordem dos Arquitectos, permitiram que entremos em período eleitoral, na perspectiva de sete novas secções regionais.

Percebendo a importância do que estava em causa, o Presidente da Assembleia de Delegados, e bem, abriu as assembleias à participação de todos os associados. Abertura que procurava colher junto dos associados, ora privados destes espaços deliberativos, uma leitura transversal e consultiva. Apesar de em Setembro passado eu apelar para que “apesar de o voto ser a nossa maior arma na definição dos caminhos futuros que pretendemos para esta Ordem, não podemos desprezar esta oportunidade”, a participação em assembleias e sessões de esclarecimentos foi residual a Norte e quase nula a Sul. Não havia razões para tremendo desinteresse. A Ordem estava em mudança e merecia uma participação objectiva, informada e mais que tudo, responsável.

As novas secções espalhadas pelo país terão agora de se constituir com corpo executivo, respectivos concelhos de disciplina e mesas de assembleia. A multiplicação de pessoas na estrutura executiva da Ordem não poderá ser desculpa para falta de representatividade no território, mas será factor decisivo na resposta qualitativa, principalmente nos primeiros momentos de mandato. Espera-se que esta transformação permita regulamentar transformações significativas nas estruturas de representação local que permitirão desenvolver o aceleramento da tão desejada equidade entre os associados residentes nos dois grandes centros urbanos e o resto do país.

Uma Ordem que aparentemente sairá musculada e capaz de dar resposta às necessidades dos seus associados, num extenso processo de desfragmentação e povoação de territórios carentes de apoio e proximidade, viverá no período pós-eleições a sua maior dificuldade na restruturação organizacional.

Perante um passo de gigante no escuro, será a ausência de certezas no que concerne à saúde financeira, após esta mutação orgânica, a corda que permitirá à Ordem maniatar-se a si mesma? Na certeza de quem poderá desvendar e resolver este problema serão os novos eleitos, não nos resta outra solução que não seja votarVotar de modo massivo mas sobretudo consciente de que o caminho, mais do que nunca, não será fácil para quem nos vier a liderar!


Jornal Construir nº411 
Abril 2020

23/04/20

Polifonia Regional


Em tempos de retiro obrigatório, a internet é quem mais ordena. Lá atrás, num passado ainda recente, eram as enciclopédias que organizavam e descreviam o conhecimento do mundo. Era nesses calhamaços que descobríamos os reinados, a matemática ou as mais variadas ciências. Uma educação circular que permitia para além do significado da palavra, compreender o conceito ou disciplina em si reportada. O tempo dos livros já lá vai e cá por casa, já reinam mais objectos electrónicos do que livros por ler! O paradigma mudou mas a procura pelo Homem de mundividência continuará para além de qualquer quarentena imposta pelo exterior.

No último fim-de-semana, entremeado por cabrito e batatinhas assadas, aproveitei para rever alguns dos filmes do Michel Giacometti sobre as suas recolhas etcno-musicais dos cânticos que acompanharam o trabalho rural da Beira-Baixa. Em um desses filmes, o narrador relatava que o canto da sacha fora “cantado polifonicamente a três vozes...” de imediato um dos meus filhos, que passava por perto, perguntou pelo significado da expressão “polifonicamente”... A resposta não necessariamente tremida mas embrulhada ao nível de conceito, e apesar de saber perfeitamente que a resposta deveria ser mais complexa, lá lhe expliquei que era qualquer coisa aproximada ao significado de uma melodia cantada a várias vozes. Após a frustração lá fui à internet resolver essa questão de conceito. Entre pesquisas, o que ressaltou não foi a definição mas a expressão assertiva de polifonia que “... em tempos de quarentena, um evento realizado no Fundão, juntou trinta músicos que actuaram desde suas casas em transmissão em directo e via streaming”. O Fundão FicaEmCasa Festival acabou por ser um extraordinário momento de registo dos “bons sons” e sobretudo do eclectismo musical que ainda é produzido por terras da Beira. Apesar de tudo, a nossa parcialidade ainda nos permite reconhecer a importância deste tipo de iniciativas agregadoras de uma comunidade cada vez mais distante dos meios culturais. Um momento inusitado deste ingrato confinamento permitiu o desenvolvimento e reinvenção de um espaço genuíno de partilha e gigantesca generosidade Beirã. Sem preconceitos ou descriminação, o mentor Fernando Tavares espraiou um tapete sobre campo aberto, para que estas estrelas, algumas para mim até então desconhecidas, pudessem brilhar ou sair do anonimato. Agora, só há um caminho para todos estes artistas, um palco comum, mais real, com luzes, fumos e muita música seja ela qual for.

Polifonia é definida pela Wikipédia enquanto “técnica compositiva em que duas ou mais vozes se desenvolvem preservando um carácter melódico e rítmico”.  Para lá do desenho deste conceito, do momento histórico do evento e da ideia de agregação de um punhado de artistas num bem comum, a principal ideia que retenho é que no Fundão, durante três dias estivemos perante uma polifonia regional, onde fica provado que é possível fazer um Festival em que os “copos” não foram a melodia!

02/04/20

... o trigo do joio.




Em Portugal, para a grande maioria das pessoas o arquitecto ainda é o alfaiate de fato à medida, que olha para o cliente como estrela cintilante dos palcos pop. Entendem-no como  artista de devaneios que cria casas onde não se pode morar. Casas  para os flashes das revistas. Não podiam estar mais errados! A profissão não é hermética e as áreas de intervenção abrangem um espectro muito largo para além das áreas directamente ligadas ao projecto, tornando-a assim complexa na sua interpretação. A ideia estereotipada do arquitecto-artista que opera apenas para uma classe endinheirada é pensamento pouco esclarecido sobre a importância do papel da arquitectura nos desígnios das nossas vidas. Profissão que necessita de relações humanas e sobretudo da boa vontade, dedicação e competência de centenas de intervenientes nas mais diferentes especialidades para que a obra chegue ao fim... Sim, sim... Que chegue ao fim!

Se na última década os gabinetes de arquitectura têm dados passos tímidos nos processos e metodologias de projecto para que o mesmo possa ser mais operativo entre especialidades e ausente de erros, será a pandemia do Covid-19 o acelerador dessa uniformização? Irá a obrigatoriedade de trabalho a partir de casa provocar a revisão e adaptação destes mesmos processos e metodologias , assim como na reorganização do trabalho em equipa? Irá o espaço de atelier, lugar de discussão e partilha, onde no confronto surgem as melhores ideias,  desvanecer para o espaço virtual? Estaremos perante o fim das tipologias tradicionais de escritórios? Será este factor importante na gestão dos custos de projecto tornando o projecto de arquitectura mais apetecível financeiramente para o cliente?

Esta experiência global, apesar de surpreendente, obrigou a toda uma estrutura societária a permanecer em casa, provocando a reflexão generalizada nos processos e rentabilidade dos sectores directamente associados aos serviços. Se no final do ano passado, a Microsoft garantia níveis de rentabilidade superiores quando os seus funcionários usufruíssem de fins-de-semana de descanso com três dias, porque não agarrarmos a oportunidade promovida por esta experiência forçada?

São muitas as perguntas sem respostas imediatas, acredito que algo acontecerá, mas nunca revolucionário! Será sim um momento de análise e reposicionamento sobre as metodologias através de ajustamentos que se reflectirão em apenas mais um passo nos caminhos que estávamos todos a trilhar. No entanto, estou certo que esta pandemia embaterá com tal violência e de modo tão veloz que será ela própria, o crivo que separará o trigo do joio neste sector tão frágil.

01/04/20

Between the River and the Sea

In this interview João Luís Carrilho da Graça reflects on how the river and the sea have shaped the city of Lisbon and his work.





Can you tell us about the special relationship that Lisbon has with the river and the sea.

With the river in particular … and with the estuary known as Mar da Palha (Sea of Straw). The city of Lisbon definitely wouldn’t exist if it weren’t for the mouth of the Tagus River, which is an extraordinary space from an ecological and natural perspective.

We often hear people talking about how the light in Lisbon is distinctive. But it isn’t unique, there are many coastal cities near large bodies of water that also have very distinctive lighting, such as Venice. The name Mar da Palha probably stems from the water taking on golden hues at sunrise and sunset and because it is a large mass of water with a significant effect on the city’s lighting.

What about the relationship of the people of Lisbon with the water?

The importance of water and the presence of the river and, further afar, of the sea, which also has a certain influence, is almost always a contrast in terms of the topography on which the city is built. And I find the water and the contours of the valley, and the highest points—the ridgelines—fascinating, because they structure the paths in any territory in the world. Since Lisbon’s topography is so angled and interesting, they continue to be a fundamental reference to this day, probably because they are based on the first paths imaginable in this territory.

This set of high lines—as opposed to the water lines, many of which were already carved out and absorbed by the shape of the city—is the matrix of the city of Lisbon. From a dynamic point of view, we have the river and the port, which is an exceptional creation, and we can then picture the history of the relationship between the city and the river.

Based on your view of the territory and how the water limits and shapes the topography, does your analysis and interpretation become elements that determine how you design near the coastline?

In a way, yes. But I don’t analyze the topography and the relationship with the water and then design something in a rational sense. The interpretation is important and, in one way or another, it informs my designs and the views I have on this relationship. Ever since I started working, I have always thought that this idea of a dynamic relationship between the topography and coastline is important. Reflecting on this boundary between the land and the river from an architectural perspective is a very interesting theme.

What are your thoughts behind the design of the Campo das Cebolas and the Cruise Terminal? Because they are two very defining constructions that are both on this boundary.

Indeed. This was to some extent a coincidence, because there were three public competitions. The first was by invitation only for the urban planning of Boavista, which I won, and my initial design was a step towards this relationship between the city and the river.

The next competition was in 2010, for the Cruise Terminal, which I was also fortunate to win. My idea was to construct it within the space—as though it were a field in an artistic sense—where the former Jardim do Tabaco dock was located, and to build everything from there. It’s as if the building is the result of a more or less telluric movement of the harbor platform and the port, and creates a kind of interaction or dialogue with the city, which is breathtaking.

And the third competition was for Campo das Cebolas. From the start, I thought it would be interesting to have a completely different square from Terreiro do Paço, which is opposite of it and has a palatial design. The site was, in fact, dedicated to street markets, and it had an everyday port where smaller boats from the river or that part of the estuary would all come to dock. The main idea was to create a square with a lot of activity that reflected all the existing intensity and create views of the river and the city.

Finally, could you speak about the emotional relationship that architects have with water. In your work is it more than a logical design issue?
I believe that in Lisbon, the relationship with water is more or less idyllic. It’s an interaction between the city and the water, and, when we walk around the city we are always surprised by the unexpected views overlooking the river, the estuary, the sea. And I believe that this interaction with the setting, with what is built, and with the water is a kind of bond that any person would feel when visiting Lisbon, not just architects.

It makes the city unique in its architecture, in how it is built on top of the territory and in its always surprising correlation with water. Take the Alfama, for example, whose name is related to the many hot springs and baths—the hammams— that existed at the time. Today that is all but forgotten but someday it might be revived; the city has always had a very intense and very interesting relationship with water in every aspect.

This interview has been edited and condensed for clarity.
http://www.rocagallery.com/between-the-river-and-the-sea

Entrevista ocorrida a 11/02/2020 conduzida por Pedro Novo e preparada em conjunto com Diane Gray.

... à deriva


No passado recente, dois prémios Pritzker e uma série de galardões internacionais alteraram de forma brilhante as coordenadas do panorama arquitectónico português, conseguindo potenciar um olhar mais atento por parte de académicos, investidores e críticos internacionais. Os resultados são os esperados, reduzidas portas abertas para o mercado internacional e uma natureza “pouco comercial” sem capacidade de ultrapassar as dificuldades. Perante o panorama de crise interna, a África lusófona permitiu uma sustentabilidade temporária maioritariamente aos pequenos ateliers portugueses, neste oceano de águas turvas.  Actualmente a economia ergue-se, a banca financia cada vez mais os privados e as dinâmicas em torno da construção emergem energicamente em torno da recuperação do imobiliário. Uma recuperação que vem tarde, onde um passado recente de crise empurrou milhares de jovens arquitectos para além-fronteiras e obrigou outros tantos a se reinventar, a alterar o modus operandi da profissão ou a escolher outros caminhos diferenciados da arquitectura. Alguns dirão que é a “ordem natural das coisa”, outros “um mal necessário” para fortalecer a profissão, na certeza porem, quem verdadeiramente perdeu foram os processos de consolidação da arquitectura no nosso território e um sem número de jovens promessas a Pritkzer que hoje contribuem para outras realidades! Perante tempos complexos e sem ancoragens, a incerteza pairará no rumo das academias, na nossa actual cultura arquitectónica e sobretudo no nosso criticismo bacoco!

artigo publicado na 
revista Concreta 2016

30/03/20

O barulho do silêncio!





Durante a curadoria da exposição” Centro Comercial do Restelo - Raúl Chorão Ramalho”, que irá ocorrer na sede da Ordem dos Arquitectos no decorrer deste ano, surgiu-nos uma pergunta que nos parecia pertinente: Porque será que ninguém pinta sobre um Van Gogh? A pergunta parece descabida e fora de contexto, mas não é! Passo a explicar. Esta exposição procura estabelecer um princípio de reflexão sobre a protecção e defesa do património cultural, em particular o património arquitectónico. No caso concreto do Centro Comercial do Restelo, a descaracterização acontece de forma lenta mas obtusa, com introdução de elementos dissonantes e alteração das tipologias originais por parte de alguns dos proprietários. Um pedaço de cidade, constante nas vivências e usos, características reveladoras de que a boa arquitectura é perene e geradora de qualidade de vida mesmo para além da sua contemporaneidade. A sua descaracterização iniciou-se nos finais da década de 80, situação com a qual o arquitecto autor do projecto demonstrará o seu desagrado aquando de uma entrevista promovida pelo arquitecto Manuel Graça Dias no longínquo ano de 94. Apesar da morosidade do processo, a sua reversibilidade é passível de ocorrer, podendo-se requalificar este importante e significativo edificado da história e caracterização do percurso da Arquitectura Portuguesa na segunda metade do século XX.

Ao olharmos para este cenário lisboeta poderiamos estar de algum modo tranquilos relativamente aos demais edificios do século XX, agora também eles, enquadrados enquanto património arquitectónico. Nada mais errados! Entre os pingos da chuva, no espaço de um mês, presenciámos a demolição de duas belas “telas expressionistas” da nossa arquitectura portuguesa: a casa do Magistrados no Fundão da autoria do arquitecto Eduardo Paiva Lopes  e a Panificadora em Vila Real do arquitecto Nadir Afonso. Se no caso do Centro Comercial do Restelo, boa parte dos estragos poderão ser revertidos, na Casa dos Magistrados e na Panificadora apenas ficará a memoria das fotografias e estudos académicos sobre os respectivos edifícios. Apesar das propostas de classificação, da criação de associações de defesa e salvaguarda, aos inumeros artigos em jornais, da realização de exposições ou promoção de debates em tornos da defesa destes dois imóveis, lamentavelmente, não se conseguiu a sensibilização necessária por parte das autoridades competentes na sua preservação.

A demolição destes edifícios é um acto violento sobre a nossa história recente. Não podemos pactuar com estas acções justificando-as com os desígnios de que a cidade tem de se mutar e adaptar às novas circunstâncias da vida. A cidade sempre soube ajustar-se às condicionantes em processos democráticos e respeitadores de quem a habita. A sua sustentabilidade, tal como Joaquim Guedes defende, vive de um “... tecido de projectos singulares em conflito, conciliação e reinvenção permanentes, insubmissos às ideologias e geometrias simplificadoras”. É aqui que persiste a razão e o critério para defesa destes objectos singulares na sua originalidade e nas referências ideológicas que carregam em si. A história nunca pode ser travada, mas é nestes momentos que os decisores devem ter mão firme na defesa de uma cidade democrática e plural, numa cidade agregadora e aberta à diferença, mas sobretudo, numa cidade que respeite a sua história contribuindo assim para o futuro dos seus propósitos.

Perante tão preciosas telas porque teimamos em continuar a dar valentes pinceladas de negro sobre os nossos amados Van Gogh´s?


26/03/20

“Rebenta a Bolha”



No nosso tempo de miúdos, sempre que alguém fazia batota ou não cumpria as regras do jogo das escondidas, gritava-se “rebenta a bolha”. Tal grito permitia parar o decurso do jogo, restituir a ordem através da reunião dos participantes, retomando o jogo com todos novamente em pé de igualdade. A pandemia do Covid-19 acabará por ser, em certa medida, esse grito de restituição da normalidade! Sem certezas de nada e de quanto tempo perdurará este flagelo, será sempre ingrata a premonição contudo os sinais poderão ser lidos!

No passado recente, o abanão do sub prime em 2008 obrigou o governo a redesenhar um conjunto de políticas por forma a garantir o mais rapidamente a estabilidade dos mercados mais afectados, inclusive o imobiliário. A manutenção dessas politicas permitiu o desenvolvimento do país de forma generalizada mas sustentada, operando-se uma recuperação interessante e mais tarde parabenizada por todos os países parceiros europeus.

À falta de financiamento por parte da banca, os benefícios fiscais permitiram a entrada de dinheiro estrangeiro no sector, operando o desenvolvimento e rejuvenescimento dos centros das cidades. Paralelamente, o Decreto-lei nº 53/2014, que serviu para alavancar o sector da construção através da promoção de um regime excepcional e temporário na difícil e desarticulada regulamentação existente, apesar da aceleração da construção, provocou consequentes processos sem controlo na reabilitação do edificado. Se os vistos gold permitiram o arranque do imobiliário nos sectores prime, foi o turismo generalizado e em massa que permitiu o desenvolvimento de forma directa ou indirecta de todas actividades que de si beneficiam e em particular o mercado imobiliário.

Esta onda da recuperação, também ela resultado das acções de charme operadas pelos governos da altura no estrangeiro, proporcionou a cidades como Lisboa e Porto assim como Portugal de forma generalizada tornarem-se “marcas” e lugares apetecíveis para um turismo que olhava a velha Europa enquanto território démodé. Este encanto permitiu a explosão de uma dinâmica muito interessante, contudo rápida de mais para todos se adaptarem. Na última década, nenhuma capital europeia que tenha sofrido deste “boom” turístico teve decrescimento ao nível do número de dormidas, exceptuando Londres em 2018. Lisboa território privilegiado da especulação imobiliária, com um crescimento ao nível das dormidas na ordem do 10% ano muito acima das percentagens nacionais, será dos territórios mais fustigados por este fenómeno do Covid-19.

Os novos agentes do sector do turismo, numa mão cheia de anos, abraçaram a actividade numa lógica de fuga para a frente, encontrando na oportunidade apenas o lucro sem perceberem a globalidade e constrangimentos do sector. A consequente diminuição dos movimentos do turismo irá revelar a inconsistência de várias áreas de um sector que se reinventou na base de um Airbnb liderado por pequenos particulares e sem experiência. Esta estrutura organizacional de alojamento, que na maioria dos casos vive dos subarrendamentos irá, em parte, esvaziar-se colocando rapidamente no mercado milhares de imóveis para arrendamentos. Será aqui que os proprietários perceberão as virtudes dos arrendamentos de longa duração, preferindo rendas ajustadas mas com fiabilidade e futuro nas garantias de estabilidade da sua rentabilidade. Um cenário que alguns não acreditavam que poderia acontecer... Mas aconteceu! Rebenta a bolha!

https://www.diarioimobiliario.pt/Opiniao/Rebenta-a-Bolha

15/02/20

No Fund(ã)o ainda há esperança?




Um edifício na iminência de ser demolido (Casa dos Magistrados) originou uma exposição que está a reconciliar os cidadãos do Fundão com o seu património arquitectónico”, assim noticiava a Ordem dos Arquitectos, nas suas notas informativas, a quando da inauguração da Exposição “Um destino; coisa simples” realizada na Moagem do Fundão no início de 2014. Nessa réstia de esperança, com a contribuição de um alargado grupo de fundanenses, completou-se o inventário de património arquitectónico iniciado pelos arquitectos Carlos Duarte e José Lamas na constituição do PDM do Concelho do Fundão (1985). Inventário, onde se destaca a Casa dos Magistrados, presente na exposição que acabaria itinerante pelas cidades do Fundão, Covilhã, Castelo Branco e Lisboa (entre 2015 e 2016).

A Casa dos Magistrados do Fundão é umas das referências do modernismo tardio português em particular na região da Beira Interior. O arquitecto Eduardo Paiva Lopes quando idealizou o edifício procurou definir uma implantação que respeitasse os alinhamentos do eixo da Avenida. Nos seus três pisos consegue, através do desenho de apenas uma água na cobertura, almejar a cércea do restante edificado implantado junto ao eixo viário. Estes circuitos são organizados por meio de um espaço distribuidor, referência na linha conceptual de grandes vultos da arquitectura mundial como Frank Lloyd Wrigth e Coderch. Tipologia estruturada entre áreas de carácter social e privado com uma organização muito clara ao nível da circulação entre áreas de serviço, social e privada. Talvez uma das melhores tipologias de habitação da cidade nas últimas cinco décadas. Uma lição para tantos arquitectos de algibeira que por aí vão destruindo e desconfigurando o rosto da história de tão bela cidade.

O início da demolição da Casa dos Magistrados, no decorrer desta semana, é a queda de uma das mais interessantes referências da arquitectura modernista da região e da cidade do Fundão. Uma estrutura habitacional robusta e qualificada para receber magistrados, numa época em que a discussão da habitação social era bandeira dos arquitectos. Presença moderna internacional, mas solta dos constrangimentos nacionalistas e politizados. Obra construída em 1967 com projecto do arquitecto Eduardo Paiva Lopes galardoado com o prémio Valmor em 1985. Uma figura incontornável do legado, do que podemos chamar, movimento moderno português.

Se há território em que as questões do património lhe são caras é o do Fundão. Os processos em torno da antiga casa dos Magistrados, do antigo posto de CTT, o Convento, o Externato de Santo António ou até mesmo do Cine-Gardunha são disso prova. A arquitectura moderna só recentemente foi afectada por processos de inventariação, classificação e natural reconhecimento, contudo jamais poderemos alegar desconhecimento ou incompreensão do que está em causa. O debate em torno da defesa do património tem de ser acutilante e praticado de modo qualificado e responsável. Não podemos continuamente validar investimentos, apesar de valiosos e justificados, na preservação do património imaterial e esquecer o outro, o património material! Temos de respeitar esta cidade que nos seus edifícios, esquinas, travessas e avenidas nos formou enquanto homens beirões. Como nunca, precisamos de mundividência nestas matérias pois já provámos tê-la em muitas outras.

29/01/20

...slow down, my friend.





Existem filmes que ainda me assaltam a memória, não pela sua qualidade ou pelas performances dos actores mas pelo momento ou estado de alma em que os vi pela primeira vez. Ainda hoje não percebo da sua importância nas minhas memórias, mas a verdade é que os revivo, no todo ou em partes, constantemente. Na sua recordação acabam por ser uma bússola para pensamentos e reflexões. Entre todos, há um que acaba por ser o que mais me “perturba”, talvez o que melhor revivo, é uma espécie de reflexão contemporânea sobre as actuais life stop motions.

Numa longínqua noite de braseira através do antiquado zapping televisivo, parei na RTP2 onde cruzei olhares com Smoke. Uma bela surpresa de Natal, filme realizado por Wayne Wang e com argumento do maravilhoso Paul Auster. A narrativa centra-se em Brooklyn em torno de uma tabacaria de esquina, o seu proprietário e nas vidas dos clientes quotidianos. Entre conversa de cigarros, o proprietário, Auggie, revela a Paul o seu arquivo de fotografias tiradas entre 1977 e 1990. Fotografias com o mesmo ângulo e focadas na esquina do outro lado da rua. Retratos de um cenário citadino nova-iorquino entre a 3ª Rua e a 7ª Avenida. Mais de quatro mil fotografias sobre a mesma realidade, independentemente das condições climatéricas, do contexto do momento ou das figuras em trânsito. Todos os dias pelas oito horas da manhã, o flash dispara sobre a mesma “realidade”! Contudo apesar da surpresa o mais comovente é o extraordinário diálogo que ocorre entre as duas personagens. Auster não poderia ser mais certeiro!

Paul: I'm not sure I get it, though. I mean, how did you ever come up with the idea to do this ... this project? 
  Auggie: Just come to me. It's my corner after all. I mean, it’s just one little part of the world, but things take place there, too, just like everywhere else. It’s a record of my little spot. 
  Paul: It’s kind of overwhelming. 
  Auggie: You’ll never get it if you don’t slow down, my friend. 
  Paul:  What do you mean? 
  Auggie: I mean, you’re going too fast. You’re hardly even lookin’ at the pictures. 
  Paul: But... they’re all the same.
  Auggie: They’re all the same, but each one is different from every other one. You got your bright mornings and your dark mornings. You got your to summer light and you your autumn light. You got your weekdays and your weekends. You got your people in overcoats and galoshes… and you got your people in t-shirts and shorts. Sometimes the same people, same time different ones. Sometimes the different ones become the same and the same ones disappear. The earth revolves around the sun, and every day, the light from the sun hits the Earth at a different angle. 
  Paul: Slow down, huh? 
  Auggie: That’s what I’d recommend. You know how it is. “Tomorrow and tomorrow and tomorrow… time creeps on its petty pace.”




O mais interessante neste relato é a “verdade” que subsiste na natureza destas imagens. Uma “verdade” de Auggie é certo, mas profundamente crua na sua relação com a arquitectura do espaço e com quem o habita, sem subterfúgios ou manipulação, mas com o natural ruído do acaso! A nossa contemporaneidade já não está preparada para slowmotions, estando a actual incontinência do disparo digital, proporcionalmente associada à quantidade de ferramentas de manipulação. É aqui que subsiste o actual problema da mediatização e na construção mental das realidades. O fotógrafo de arquitectura é hoje uma figura central na revelação ou não da verdade da obra construída. A coerência com a realidade desapareceu nos flashes de uma vontade descomprometida. Sabendo porém que a fotografia acrítica estará num patamar de inacessibilidade, contudo a objectividade será sempre deturpada pelo “autor” fotógrafo. A construção de uma linha estética, onde o olhar de alguém impõe uma marca própria, formata ou ficciona a obra no seu “traço”, com profunda tendência a homogeneizar perversamente o modo como olha para a diferença! A influência que alguns fotógrafos da actualidade constroem entre editores, websites e revistas da especialidade de arquitectura delimitam um star system em que a qualidade da obra não corresponde aos pergaminhos do enquadramento fotográfico. Perante nefasta realidade, o monopólio da mediatização tem de ser interpretado e clarificado no escrutínio da qualidade!


photographer KC Bailey